domingo, 12 de maio de 2013

“O funk não é contemplativo, é dionisíaco” – O trajeto da bala perdida cultural: As mensagens, as entrelinhas e a dança



Eu venho pensando muito sobre o funk de uns tempos para cá. Na verdade, eu sempre gostei de ficar antenado às novidade e até de antecipar quais seriam as musicas mais tocadas nas festas de quinze anos e nas formaturas de colégio, porém venho, por esses tempos, pensando no papel crítico, ou melhor, naquilo que se insere o funk como cultura e como traço óbvio de nossa identidade sociocultural; naquilo  que indica o funk como uma chaga exposta das segregações sociais e, ao mesmo tempo, uma arte com capacidades múltiplas e muitas ainda não exploradas. Tenho pensado, com isso, na relevância de algumas mensagens, nos símbolos que estamos criando de “resistência” ou de "conformidade" e até mesmo - papel bem menos nobre e divertido do que antecipar tendências de bailes - tenho pensado no que e no por que das coisas que pessoas, como eu, pensam ao ouvir funk ou ouvir falar de funk.
Já não se faz mais necessário especificar aqui no Brasil, sobretudo no Rio de janeiro, de que funk estou falando, ainda mais quando digo que esse estilo musical ainda sofre algumas barreiras estigmatizastes, tanto da crítica – seja ela elitista ou pseudo-pop – quanto do próprio funkeiro. Enquanto o estigma da crítica, geralmente explicita um preconceito social secular deixando, assim, de ver o lado hierarquicamente ruinoso da cultura, ou relativizam de forma inocente os conteúdos na tentativa de tornar as mensagens emblemas de algum pressuposto teórico da própria elite; o estigma da do funkeiro está nos símbolos adotados de poder, nos devaneios ostentosos do capital, nas referências esdrúxulas à cultura pop norte-americana, ou seja, está exatamente naquilo que o oprime. Desse modo é o próprio recalque do funk, que faz com que o seu alcance seja, em alguns âmbitos, interrompido ou diluído.
Não é difícil perceber que a mácula da ostentação de um status social ilusório, transitório e, por vezes inexistente, como o Poder sobre o outro sexo a partir do dinheiro, de posses ou de qualidades pessoais especiais como a pró-atividade sexual, apesar de serem demonstrações de um tipo de construção de autoestima de um povo que sofre com a desvalorização desses ícones, são caminhos que só dizem a favor da máquina opressora e são, ainda, caminhos que criam em torno de si um sentido lógico nessa sociedade exatamente enquanto doutrinam e iludem os que se intitulam como tais. E o que se deveria perceber é que estes são verdadeiros exemplos do quanto está exaurido de ideias claras sobre si a população mais explorada e carente de estima.
“Sou foda!”

Assim, parece presumível que se diga que há muito mais contexto no que o funk não diz do que no que ele diz, melhor dizendo, a exata antítese das suas letras revela muito mais sobre a realidade do que os símbolos de poder que ela propaga: seus carros importados, suas mulheres lascivas e voluptuosas, suas lanchas, seu desempenho sexual, seus amigos fieis, e sua grana infinita, dão lugar às dezenas de prestações de um carro popular, suas aventuras amorosas, cada vez mais breves e superficiais, seus amigos comuns e sua bufunfa módica e suada, quando há. Mas esses – apesar de serem muito constantes, ainda mais porque a indústria cultural se apossou da produção, e forçadamente reproduziu essa ideologia de sucesso à exaustão, de forma que isso acabou inoculado quase que totalmente no ideário popular – são casos específicos dentro de uma multiplicidade gigantesca que se pauta no eterno por vir dessa história.
Temos que mencionar o papel importante de MC’s como MC Leonardo, com suas rimas de contestação social como “Ta tudo errado”, que além de politizadas, carregam consigo a mensagem crua e dura da realidade da qual somos apartados em nossos apartamentos. Não dá também para não nos lembrarmos de tantos outros, hoje no ostracismo, mas que ainda são lembrados pelos DJs e pelos dançantes das pistas nas festas e que tiveram papel importante nesse sentido de contestação e de apresentação dessa realidade calada e culpada antecipadamente como Cidinho e Doca entre outros.
Poderíamos falar da parte humorística dos funks ou de muitas outras vertentes atuais e antigas, mas não podemos negar que o giro capital e o status adquirido estão cada vez mais reinando sobre qualquer tipo de mensagem e assim devemos ler o funk nas entrelinhas psicossocial, mais do que no “papo reto que eles vão mandar pa tu”.

De modo inquebrantável o funk é um ritmo único, que bebeu de misturas eletrônicas americanas e batidas afro-brasileiras, de uma forma que se tornou quase um ritual xamã de extravasamento do ser, e essa frase de Francisco Bosco (colunista do jornal O Globo), “O funk não é contemplativo, é dionisíaco”, da qual me apossei para título desse texto, realmente encerra no que o funk é enquanto prática comunitária. Realmente o ritmo é contagiante (claro que de forma benéfica para alguns, enquanto esse mesmo contágio não é bem quisto por outros) e realmente há alguma coisa de dionisíaco no funk. Existe algo que vai para além do que se diz, existe uma manifestação corporal de quase transe, de excitação, de sexualidade e de inspiração ao exagero dos prazeres que é indissociável do funk, e, talvez por ele carregar esse caráter de exuberância dos prazeres da carne é que se possa esperar de tudo do funk. O colunista faz quase uma ode a um recente tipo de dança criado na cultura funk, que como tudo que é da cultura funk, bebeu de culturas diversas e criou uma maneira única de execução: o passinho, e através de sua admiração à estética e a plástica da dança sentenciou que o funk não é contemplativo e sim dionisíaco. Concordo em partes com o Bosco, principalmente quanto à forma prática e à fruição frenética dos dançantes, mas vejo na história do funk e nas mensagens que por vezes ele transmite muito mais de sua importância social. Podemos e devemos ler o funk em todos os seus sentidos.


André Vargas 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre o filme "Meu pé de laranja lima" e a aproximação do sensível



O filme conta uma história de aventuras imaginárias, travessuras e molecagens, de ganhos e perdas pessoais que amadurecem, do personagem Zezé. Amadurecimento que nos é visível durante toda a trama. Um moleque incrivelmente prodigioso, mas com uma profunda carência de afeição que se simboliza bem com a sua lista de amigos que cresce e diminui através das contingencias de sua vida.
No longa-metragem de Marcos Bernstein, roteirista de filmes consagrados como Central do Brasil, assim como no livro base de José Mauro de Vasconcelos (“Meu pé de laranja lima”, 1968), a dor da perda é uma constante e Zezé (João Guilherme Ávila) em sua coleção de amigos experimenta as tristes sensações da impotência humana quanto à efêmera e insegura força da vida: pessoas queridas que vão embora, outras que chegam e até mesmo inimigos que viram a casaca e se tornam nossos melhores amigos. Assim se encaminha o roteiro, nesse melancólico e harmonioso drama comum, que tem como diferencial o ponto de vista da criança, a inocência e o ímpeto de fazer (nem sempre certo) de quem vive uma infância pobre, mas colorida pela imaginação.
O título faz referência a um dos personagens da trama, Minguinho, o pé de laranja lima, que se torna um dos grandes amigos de Zezé e demonstra, mais uma vez, o grande poder criativo do garoto, que é capaz não só de conversar com a árvore, mas de ouvi-la e de aventurar-se com ela. No filme o personagem Minguinho e sua relação ficam um pouco diminuídos, mas outras sensações e ideias se tornam mais fortes como a crítica a falta de compreensão, de diálogo e de proximidade, entre aquele adulto que pensa que se tem que corrigir as crianças a todo o custo e as crianças que escapam brilhantemente das imposições morais por causa de seu olhar sedento por vida. A poesia das verdades infantis e das intenções mais singelas do garoto, e a sua vontade de se sujeitar, apesar dos pesares, e agradar o outro.
Nessa história de perdas e ganhos, chega-se a um momento em que muitas perdas se sobrepõem e criam um choque catártico, não só no personagem, mas na plateia, obrigando ambos a sentirem tamanha dor que “amadurecer”, se é que isso é realmente bom, parece ser o único caminho, porém o Zezé adulto (interpretado por Caco Ciocler), ao final do filme, mostra que ainda permanece dentro dele o espírito arteiro do menino que foi. Então, a história bate e combate a intransigência e ignorância dos pais coercivos, ao mesmo tempo em que é uma ode a certo tipo de “liberdade” moral, onde podemos dizer que é preciso manter sempre vivo o passarinho que existe dentro de nós. Porém é perceptível que a nossa sociedade está em curso para que uma história de amizade entre uma criança e um adulto seja fruto de julgamentos diversos e, por horas, perversos. Nessa história, há uma relação “secreta” de amizade e de amor entre um garoto (Zezé) e um adulto (Portuga - José de Abreu) e não é difícil imaginar pessoas criando e rotulando questões éticas na mesma. Porém a trama desmistifica essas questões do velho e bom “não fale com estranhos” e traz a ternura mais verdadeira que possa existir entre dois seres humanos, de forma tão completa que julga-los mal parece ser o maior de todos os crimes. A relação entre eles é o primeiro contato afetuoso que o garoto conhece e, talvez, o último do adulto, marcando, assim, os personagens polarizados (velho-moço) como iguais; um detonando no outro, emoções que os ligarão para sempre. 

“Meu pé de laranja lima” é poético, profundamente simples e detona uma dor marcada e vertiginosa, como passos de quem corre em direção aos trilhos de um trem que se aproxima, além de transbordar uma ternura óbvia em quem o assiste, que consiste no ato de identificar-se, na compaixão. É um filme onde se pode perceber com graça a mão do diretor em imagens poéticas importantes como a sombra do pai – o pai como uma sombra de homem -, no momento em que o pai rouba-lhe o dinheiro ganhado escondido; as imagens afeições deformadas dos rostos nos atos violentos do Portuga, do pai e do próprio Zezé e nas transições de cenas. É, ainda, um filme para quem consegue ver a beleza e a importância que há na tristeza, na pobreza, mas, sobretudo, naquilo que suplanta (e talvez daí brote, como uma árvore num terreiro velho) tais situações: o amor e a fantasia. Tecnicamente, os atores trazem a carga perfeita de intimidade; a trilha, a fotografia e a montagem são primorosas, portanto, é um deleite artístico-experiencial, além de tudo o que o roteiro deflagra em nós em ideias e associações.


André Vargas

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Decifrando Valesca Popuzuda - O abismo do pensamento no relativismo cultural ou onde foi parar o feminismo?

É importante, antes de mais nada, salientar o salutar esforço que hoje se faz para tornar esses limites entre a cultura popular e cultura erudita obsoletos, mas é preciso perceber que esse caminho guarda algumas armadilhas alienantes inesperadas, como a generalização dos sujeitos e dos gostos, a falta de crítica dos gostos e das manifestações, o esgotamento teórico e o discurso vago do rebelde típicos do relativismo cultural.
Relativismo cultural: Há algum tempo essa forma de pensar a cultura me causa cera estranheza, não por ela considerar como importantes (como são) camadas culturais que antes eram subjugadas (e ainda são) e alvos certos de preconceito (idem), há de se admitir tais problemas e de combatê-los com grande afinco, porém não é somente com o combate e com o rompimento dessas estruturas sócio-culturais que nos aparecerão mais claramente os códigos desses seculares desníveis impostos e carregados pelas elites culturais.
De toda a forma a moda pop, carregada com gosto pela classe média e que, assim, acaba mal sustentada em virtude da insegurança identitária, do fetiche que há na alternatividade a todo o custo e da sede de inclusão social da mesma, vem tornando essa disputa mais forte e cega do que deveria esta ser. Tornando aqueles que são contrários a esse pensar alvos de estigmatização intelectual.
Em fatos, minhas críticas já soavam reacionárias aos grandes mártires da cultura pop genérico-generalizada, antes de as birras intelectuais e jornalistico-opinativas, ocasionadas pela notícia de um estudo do Feminismo à partir das letras de Valesca Popozuda ecoarem pelo paraíso mórbido da internet, mas esse tórrido combate me pôs, novamente, em posição fortemente crítica, que, ao que parece, escapa das duas frentes,  da ignorância rompante da jornalista à inocência crítica do estudo.


De modo algum acho que não se deva estudar a cultura pop, ou qualquer manifestação que desse modo cultural tão amplo surja, ainda mais no contexto da arte brasileira: seja Funk, Pagode, Axé, Sertanejo..., o que for. De maneira alguma eu negaria aqui a importância única do popular na nossa identidade e nos nossos afetos. O que discordo é da generalização, ou até, da falta de escrúpulos críticos para se defender uma causa qualquer. As pessoas dizem "O Funk é bom (gosto generalizado) e tem que ser estudado", vamos descriminar um pouco mais as coisas como acho mais verdadeiro em se tratando de cultura, o certo seria dizer "o Funk é importante e tem que ser estudado". Assim, estando o pensamento de acordo com a frase que expus, fica mais visível que temos uma variedade de coisas a serem analisadas que falam "à favor" e "contra" o Funk, e não somente, o que é armadilha típica de nosso tempo, o vago dizer "O Funk é bom" e temos que mostrar que ele é bom custe o que custar.
Não sei se me faço claro, mas é preciso muito cuidado com essas determinações breves de causa para não se perder na hora de escolher um objeto representante. E aqui estamos nós, por causa de uma ruidosa escolha propositalmente polêmica, nessa madrugada, analisando letras da Valesca Popozuda para tentar achar o que se diz ser o feminismo em sua forma contemporânea. Então, destrinchemos alguns trechos coletados que simbolizem de uma forma digna o total da obra da Valesca, para não correr o risco de ser injusto ou ignorante. Não estou querendo, com isso, diminuir a arte, o Funk, ou a Valesca, mas, antes de tudo perceber a incongruência entre o argumento dos defensores de que haja nessas letras alguma coisa da força feminista:



"E aí seu otário
Só porque não conseguiu foder comigo
Agora tu quer ficar me difamando né?
Então se liga no papo
No papo que eu mando

Eu vou te dar um papo 

Vê se para de gracinha
Eu dou pra quem quiser
Que a porra da buceta é minha"
(A porra da buceta é minha)

Acho que é nesta música que reside a maior dificuldade, ou melhor, a maior tendência, ao se destacar um comportamento de poder sobre o outro sexo e de intimidade com o seu próprio, como feminismo, mas percebamos que não é exatamente no domínio (que antes era do sexo oposto) do outro que está a intenção equânime da luta feminista. Essa música mais me parece uma resposta afetada e ofensiva de uma mulher que foi ofendida igualmente. Se for essa a igualdade: igualdade de peso de resposta, que se trata o feminismo contemporâneo, aí está a letra-hino! Mas acredito que a luta feminina não é para responder ao homem como homem, mas, sim, para exercer o feminino sem problemas, sem julgamentos, sem subordinações ou estigmas. E ser livre sexualmente, não é exercer o feminino tampouco e sim exercer a humanidade, logo, afirmar fazer sexo com quem quiser, apesar de ser uma vitória perto da mulher de séculos passados, de longe não significa absolutamente a luta feminista em seu complexo e difícil caminho.

"Você quer o meu corpo
Você quer minha buceta
ou você prefere que eu te toque uma punheta?
Você quer o meu corpo
Você quer minha buceta
ou você prefere que eu te toque uma punheta?"
(Solta essa porra)


A expressão "mulher-objeto" já está basante batida e utilizá-la acaba parecendo machista, pois trata-se do conceito masculinizado do que deve ser a mulher moral e eticamente. De jeito nenhum a liberdade sexual deve ser reprimida por quem quer que seja, mas temos que perceber no que a nossa liberdade acaba por nos aprisionar justamente no que nos desvencilhamos. É importante notar, não como moral, mas como questão feminista, que o sexo como ruptura é só um passo que, concordo, deve ser desmitificado e dessacralizado, mas não, objetado no desejo masculino, deve ser assumido como identidade feminina, pois assim já fazem os machistas. Logo, essa postura é a liberdade sendo usada para voltar para a prisão do que é comum na sociedade machista. Nada de novo surge quando a mulher se objeta no desejo do homem interessado por sexo, ao menos não enquanto o homem ainda estiver acostumado culturalmente com essa proposta, que, por ventura, ele mesmo criou.



"Amante meu papo é reto, comigo tenta quem pode, a sorte está lançada, se não gostou me engole.

Ô fiel, recalcada, o melhor é ser amante enquanto eu como seu marido tu se acaba lá no tanque, lava passa e cozinha, faz tudo direitinho, e só pra te deixar bolada eu tô comendo seu marido, eu tô comendo o seu marido.

Se não gosto, me engole. Eu tô comendo o seu marido, se não gostou me engole, eu tô comendo seu marido .."
(Amante X Fiel)

"vou te dar um papo reto
é melhor ficar ligado
não deu conta do marido
vai rolar a cachorrada
e se marcar eu como mesmo
não deu conta eu como mesmo
tu ta marcando eu como mesmo"
(Se marcar eu como mesmo)

Já essa duas músicas caberiam em uma outra crítica, esta destinada a mídia que tenta naturalizar a traição masculina e isso já aparece como constante em algumas novelas, onde se cria uma relação humorística entre as personagens resignados das mulheres e um relação de coitado dividido do homem que acabam por levar a aceitação do público daquele sujeito que mente, omite e engana e também leva ao ideário do publico feminino ordinário a relação romanceada de estar nessa situação, onde a recíproca, ou seja, se ela mesma trair, não será verdadeira e aceita. Não há, como podia, uma lição sobre a monogamia, ou sobre as formas de se viver o corpo, o amor e as vontades com verdade e possibilidades para ambas as partes, mas se propaga a mentira do homem como certo gracejo e certo charme enquanto essa possibilidade geralmente é negada à mulher. Não consigo ver feminismo ai também! E nessas músicas também é perceptível que se quer dar um poder à amante que ela na realidade não tem, pois ela se contenta em ser o sexo do jogo, onde o sexo surge como a parte mais importante... difícil questão, mas tendo a entender como recalque afetivo nos contextos atuais.

"Eu vou pro baile procurar o meu negão,
Vou subir no palco ao som do tamborzão,
Sou cachorrona mesmo
E late que eu vou passar
Agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar"
(Sem calcinha)

Não consigo ver, apesar de estar me esforçando, nada além do sexo, da sexualidade, do status sexual, do "poder" do sexo, sendo exposto, o que não nego possa dar a noção a alguém de independência sexual, mas psicologicamente essa independência se assemelha a carência afetiva e recalque, não sei delimitar bem essas questões, mas não caio na esparrela de creditar verdadeiro poder, além do entretenimento e da catarse de séculos de repressão sexual, ao discurso dessa letra.

"Coringa, sem neurosi,
olha essa mulher toda gostosa que tah vindo ali tu conhece
É a Valesca cara aquela feinha da favela
olha como ela ta, como ela ta mó peitão, mó cabelão, mó bundão olha mano
e neguinho essa dai eu vo ataca
Não calma ai que eu vo te mostra como é que faz ai se liga

ÔÔÔ Coringa seu otário para de vacilação. Tu é pouca

areia pro meu caminhão! Agora é diferente, somos nós
mulheres que estamos mandando. Fica de quatro, balança
o rabo, me dá a patinha, bota a linguinha pra fora e
LATE, late seu cachorro.. late que eu to passando!"

O poder da Valesca, nessa música, é atingido depois que ela entra para o padrão de beleza, depois que ela passa ser desejada, dai então ela pode atingir aqueles que atingiam ela. Nada desse poder do corpo, apesar de o corpo também ter sido um ganho da luta feminina, significa a luta, pois a verdadeira luta, o verdadeiro poder seria acabar com os padrões masculinos do corpo e do desejo, seria o lutar por essa autonomia dos desejos e dos interesses e dos sujeitos.



Para terminar coloco aqui a música cujo título foi também utilizado no projeto da "polêmica" pesquisadora:
Na cama faço de tudo 
Sou eu que te dou prazer 
Sou profissional do sexo 
E vou te mostrar por que 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Mulher burra fica pobre 

Mass eu vou te dizer 
Se for inteligente pode até enriquecer 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Por ela o homem chora 

Por ela o homem gasta 
Por ela o homem mata 
Por ela o homem enlouquece 

Dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão 

Coloca silicone 
E faz lipoaspiração 
Implante no cabelo com rostinho de atriz 
Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz 

Você que não conhece eu apresento pra você 

Sabe de quem tô falando? 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Mulher burra fica pobre 

Mas eu vou te dizer 
Se for inteligente pode até enriquecer 

Minha buceta é o poder 


Rasta no chão, rasta no chão, rasta que rasta que rasta... 


Por ela o homem chora 

Por ela o homem gasta 
Por ela o homem mata 
Por ela o homem enlouquece 

Dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão 

Coloca silicone 
E faz lipoaspiração 
Implante no cabelo com rostinho de atriz 
Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz 

Você que não conhece eu apresento pra você 

Sabe de quem tô falando? 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Mulher burra fica pobre 

Mas eu vou te dizer 
Se for inteligente pode até enriquecer 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Rasta no chão, rasta no chão, rasta que rasta que rasta que rasta no chão...
(Minha buceta é o poder)

Por três frases cai-se na pachorra de se transferir caráter feminista a Valesca: "Mulher burra fica pobre /Mas eu vou te dizer /Se for inteligente pode até enriquecer", não se enganem, essa inteligência indicada é relacionada a como a mulher trata o seu sexo e nada mais!

Dessas questões é que tiro a dúvida se há mesmo critério sobre o objeto que se escolhe, não o Funk, mas a especificidade de relacionar Valesca ao feminismo, a não ser que se faça essa relação para dizer que ali, na verdade, não o há. De toda a forma a academia está criando teóricos cada vez mais relativistas para combater a sua própria estrutura elitista, mas cada vez mais inseguros e acríticos quanto ao seu próprio objeto e que, assim ladram, mas não mordem no ímpeto de trazer a tona os limites acadêmicos e a cultura popular e, dessa forma, não se rompe com nenhuma estrutura.



André Vargas

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O delírio fotográfico




Não há como não perceber, em qualquer espaço espetacular[1] da sociedade - claro que restrito ao espaço-tempo de lazer das pessoas -, a câmera fotográfica (acoplada aos celulares, ou não) está cada vez mais popular. Um caminho natural em um mundo onde as tecnologias galopam, barateiam-se, entram na moda, perecem e ressurgem; um caminho natural em um mundo onde o sentido do próprio ser está contido no modo compulsivo do consumo de produtos e na ideia de posse destes como status social e falsa ideia de construção de identidade.

A sociedade cria espaços vazios no homem, ou seja, retira dos homens a sua propriedade particular, para depois vender para os mesmos, maquiagens de identidade que nunca vão se estabelecer por completo e satisfatoriamente no ser deste homem perdido. E a máquina fotográfica exemplifica perfeitamente esta questão, pois ela ainda é, apesar de popularizada e difundida, conhecida por uma minoria que detém, de certa maneira, o valor criativo desse aparelho.

Não é difícil entender o que eu digo, ainda mais quando percebemos que, cada vez mais, novos mecanismos de propagação das fotografias são criados e utilizados como o explicitar das vaidades instantâneas. E ainda mais esses mecanismos corroboram e fazem com que as pessoas, iludidas ou não, perceptivelmente ou não, conscientes ou não, acabem por ceder ao tempo-resposta[2] que lhes é imposto pela sociedade.

Claro que tratamos de um povo explorado e praticamente vencido pelo esforço e pela estafa mental do trabalho, que não tem tempo para divagações, nem tampouco desejo por ampliar questões estéticas, intelectuais e capacidade abstrativa e que, com isso, objeta em tudo o uso, a imagem, o valor e a distração.

Não falo contra a distração, muito pelo contrário, assim como Theodor Adorno, em seu livro de ensaios Indústria cultural e sociedade, entendo o tempo que chamamos por lazer como benéfico e, mais do que isso, saudável, para uma sociedade, como já dito, explorada e cansada, porém desconfio que o lazer vá além, melhor, nada tem a ver com as formas, especificadas pela indústria cultural, de distração. O prazer do se apropriar-se de si mesmo no tempo é o encontrar-se consigo mesmo e não alienar-se de si, não o relaxamento. Este relaxamento é exatamente o entregar do seu tempo de lazer ao continuar do processo de exploração: a exploração mental.

Pois bem, as pessoas possuem suas máquinas fotográficas e, da forma com que estas máquinas são produzidas e, pautando-me pelo interesse inerente à tecnologia digital, as fotografias são tiradas, geralmente, para serem expostas pelos computadores e, mais especificamente pela internet.

A internet é um ponto de estranhamento para mim, pois a utilizo cotidianamente e vejo muitas formas interessantes de propagação de conteúdo e pesquisa nesse meio, porém, para se analisar a “idiotização” do ser humano ela é como se fosse a consequência. Fica sempre a suspeita de que a internet amplifica o modo de ser (ignorante de como se é) apropriado para este mudo. Melhor dizendo, fico sempre a pensar que a internet, principalmente no quesito redes sociais, direciona a humanidade para a vaidade, inveja, prepotência e para o palpite ignorante como posicionamento.

De toda a forma mecanismos como o Instagram criam uma banalização fotográfica ímpar – banalização que é, por sua vez, gerida pela popularização da máquina fotográfica; nasceu da digitalização da imagem e vem se encontrar com a propagação virtual instantânea – e bota a foto numa posição de interferência com a experiência acrescentadora.

As pessoas não querem ver, comer, beber, sentir... As pessoas querem mostrar, por vezes se mostrar. As pessoas estão querendo dizer que são. Em busca da identidade perdida, querem a todo o tempo dar demonstrações de que podem ver, comer, beber, sentir..., coisas que supõem que outras pessoas não podem fazer. Essa maneira práxis de existir contemporânea, é claro que não fica somente na questão das fotos, se estende para quase todas as esferas de interação pessoal-virtual. E a câmera fotográfica é usada como testemunha do que se pode ser e ter, com resquícios claros de vaidade, mas sobretudo, de falta de identidade.

As pessoas entram nos museus com suas máquinas fotográficas em punhos, prontas para fotografar tudo o que puderem, e até o que não puderem, se notarem (sentirem, experienciarem, conhecerem...) nada daquilo. As obras do museu são apenas alvos, algo para depois dizerem “Eu vi isso!”, criando a imagem de cultos, dentro dos padrões que a própria cultura impõe. Vão à praia e tiram fotos instantâneas para dizerem que foram, que são descoladas, que se divertem... Tantos exemplos poderíamos analisar com essa incerta (e ao mesmo tempo certa) investigação psicossocial.

De fato, as fotos se multiplicam no jogo do curtir-compartilhar-comentar, enquanto o vazio da identidade está cada vez mais exposto pela maneira como nos pronunciamos nessas redes, mas o mais impressionante é ver que tudo isso é, geralmente, encarado com naturalidade e até com certo relativismo permissivo, que indica duas respostas a essa maneira de se colocar: ou não há nada demais e “o que você tem a ver com isso?”; ou “o ser humano precisa disso”. Duas reposta que botariam um falso ponto final na discussão, posto que não deixariam conformados os que se incomodam com o que há e o que ainda há por vir, ou seja, com todo o processo no qual estamos definitivamente incluídos.

É preciso que fique claro que não sou contra a popularização e o maior acesso ao mecanismo máquina fotográfica para todos, não tenho nenhuma pretensão em dizer quem é de fato fotógrafo e quem representa a banalização da fotografia, só estou explicitando a minha inquietação com o que reflete no modo como se vive, essa troca do olhar vivo pela fotografia, da memória afetiva pelo chip de memória e, em geral, da experiência estética única e construtiva pela retração e pela propagação de imagens-identidades. 




André Vargas



[1] Tomando-se por base as noções de espetáculo do livro Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord: onde a verdade das coisas se perde nas representações espetaculares das mesmas, para a breve contemplação do homem, na formação de um pseudo-mundo inebriante e falso, com suas relações próprias, mediadas pelas imagens falsificadas da vida;
[2] Faço um breve apêndice aqui para explicar o termo “Tempo-resposta” e que acabo de cunhar. Tempo-resposta, nesse caso, significa exatamente o paralelo entre o tempo contemporâneo e suas estruturas (fixas, móveis, em construção ou em progressão) de relações humanas e a resposta que esse mesmo tempo espera e prevê do homem submerso nessas estruturas. A resposta que o tempo exige é o reproduzir do esperado, do previsto pelo contexto. Cada tempo tem sua resposta prevista e o tempo muda com o nascimento de respostas diferentes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

“O som ao redor” e as expectativas


Nada pode exprimir melhor a sensação que se tem ao se assistir este filme do que a quebra de expectativas. O espectador, ou seja, aquele que assiste ao correr das cenas ao mesmo tempo em que espera pelos desfechos, é jogado em armadilhas estrategicamente dispostas no decorrer do enredo pelo diretor.   Claro que poderíamos falar da imagem poética, da imagem cinematográfica, que obviamente marcam como fotografias exemplares em nossa memória nesse filme, mas não adentrarei a estética das imagens nesse texto. Partido-se desta perspectiva mais esteta, colocaríamos a sequencia da cachoeira de sangue em destaque, como se fosse um ponto vermelho, um ponto sanguinário, na história relatada no filme. Mas nem essa cena, por si só, faria sentido, para mim, apesar de profunda e autonomamente bela e poética, se ela mesma não assegurasse o mistério de esperar por um mistério, o mistério do por vir, ou seja, se ela mesma não fizesse parte de um jogo de montagem.

Todo esse filme é construído para que o espectador espere ansiosamente por um drama, uma tragédia, um desvelamento, algo que nos aguarde atrás da porta e nos dê um susto eterno, verdadeiro e infalível, porém, à medida que o tempo passa e nossas expectativas são, uma por uma, frustradas, com  genialidade, pela montagem, a expectativa fica de certa maneira “avessada”, como se pensássemos assim “É tudo normal e corriqueiro, não vai acontecer nada de diferente aí”. E é nesse exato momento de “desespectativa” que um ingrediente novo de mistério se configura aos nossos olhos e nos projeta novamente para a espera de uma novidade.
Botando em cenas, podemos sequenciar as tais expectativas sobre as quais falo e deixar mais claro o que quero dizer. Por exemplo, na cena em que o personagem "João", interpretado pelo ator Gustavo Jahn, descobre que o carro de uma amiga tem o aparelho de som roubado em sua rua. E, perguntando aos trabalhadores dos prédios, desconfia de um sujeito chamado "Dinho", que até então não fora apresentado.  Algo no diálogo e na mistura dos sons que se seguem delicadamente semeados, a suspeita de João sobre Dinho, o caráter suspeito e, ao mesmo tempo, inconspícuo que os trabalhadores respondem e o ato do próprio roubo, torna aquela uma situação onde a expectativa mais comum (e essa foi a minha) seria de um encontro categórico e definitivo entre João (polo positivo da trama) e Dinho (o primeiro vilão). Mas a quebra é fatal e mostra que Dinho é um primo adolescente de João que furta por joguete, por algum tipo de status de banditismo, herdado por seu avô (ao que se vê no final do filme). Ou seja, onde esperávamos um encontro-combate entre o bom o mau, só há o normal; onde o mau mais nos parece um inocente pela sua inconsequência pueril.
Outra cena que nos cria expectativa, para depois rompê-la é a cena onde a personagem "Bia", de Maeve Jinkings, recebe o entregador de água e inesperadamente tranca-se com ele sozinha em seu apartamento. Não sei se algo nos olhares dos personagens, que sabem mais sobre a história do que nós mesmo, ou no ambiente que se desenvolve a partir de uma aproximação súbita e inesperada dos dois, faz com que cogitemos que algo de sexual vá acontecer, mas logo entendemos que a aproximação, a descrição e o segredo deles é por causa da droga que o entregador de águas vende. Essa mesma personagem protagoniza com o cão de um vizinho um duelo que só termina com o final do filme, mas que, no decorrer, nos cria uma série de esperas, como quando cogitamos junto com a personagem a morte do cão.
Os personagens dos seguranças particulares da rua são um exemplo quase cômico da frustração boa do cotidiano e, nesse sentido, a gente chega a questionar o modo como criamos certos medos que não se sustentam, a não ser na lógica que se têm dentro desse sistema de segregações que é a sociedade atual. Não vou chegar a uma crítica social mais aprofundada, pois essa está na superfície do filme, e acho que o mais interessante do filme é no que ele se confronta conosco, indivíduos espectadores, cada um na sua angústia. Voltando aos personagens seguranças, eles demonstram à todo momento que nós esperamos por um crime na rua tanto quanto eles, como na cena em que guiam um estrangeiro, ou na cena em que assistem a uma mulher vomitar, mas a cena mais exemplar é quando eles começam a contar a história de como se conheceram. Somos levados pela postura dos personagens, e até, talvez, por certo estereótipo preconceituoso do nosso sistema de segurança, a supor uma vida de entraves e solavancos ilegais e criminosos, mas o que temos são pessoas que se ajudaram em alguns momentos de dor e perda catastrófica. É praticamente uma sequencia de suposições furadas que fazemos ao longo do diálogo entre os três seguranças, pois eles vão criando esquemas suspensos de retórica que nos induzem ao erro de cogitar mistério onde não há.
Uma última cena, e essa um exemplo perfeito do som como personagem do filme, é quando o velho "Francisco", interpretado pelo ator Waldemar José Solha, sai pela madrugada solitário rumo ao mar e nele se banha. Um som de profunda gravidade o acompanha ao acender das luzes de segurança da calçada, de modo que, de alguma forma, esperamos ali mais do que um banho de mar noturno, mas esse "mais do que" não se faz existir e o rotineiro e banal permanece verdadeiro.

Quando, então, fazemos o que o filme quase nos obriga a fazer: sossegamos com as expectativas de mistério desvendado e apenas esperamos que o “nada” novamente aconteça, o susto nos toma pela mão e nos recoloca no medo de que alguma coisa possa modificar a lógica realista-banal, como quando aparece o personagem de um menino de rua, furtivamente, pelo telhado, dentro da casa supostamente vazia e em cima da árvore. Isso mostra que, apesar de termos responsabilidade sobre o tamanho de nosso medo, a insegurança existe - não como uma horda de assaltantes que invade a casa pela madrugada, mas como uma criança que nós mesmo criamos e que nos furta o pão e foge chorosa e amedrontada ao desferirmos um murro em sua boca.
A cena, que já citei, da cachoeira de sangue é a mais emblemática para o retorno às expectativas, pois algo é garantido com aquele banho de sangue, algo há por vir, mesmo que não venha visivelmente e definitivamente. Há uma história oculta no filme que se desvela no final, sem pompa e com a humanidade dos tremores das mãos e do receio de cada personagem, mas no momento em que se tem um combate final de forças (nem boas nem ruins, mas certamente forças) nessa história oculta há um corte perfeito que muda o foco para o duelo cotidiano entre a personagem Bia e o cão do vizinho, que estão no seu embate final ao mesmo tempo em que o duelo de forças se instaura. Portanto essa história oculta não é, e em momento algum se torna mais importante do que a história “aberta” do dia a dia.
Claro que se pode falar do contexto social do nordeste; das questões de poder que envolvem os coronéis e sua decadência; da urbanização grosseira das cidades; da  classe média e das falhas sua segurança das quais a própria classe média tem uma parcela de culpa, entre outros fatores, se quisermos analisar a história hermenêutica e subjetivamente, mas essas são questões mais dadas e que não valem nada sem o questionar-se a si mesmo que o filme induz. Poderíamos ainda falar sobre o nível das atuações, mas entendo que isso é supérfluo, nesse caso, apesar de termos boas atuações, a montagem é o principal personagem e tem uma atuação esplêndida. Fato é que esse filme quebra tanto as expectativas que muita gente que foi assisti-lo, esperando a maravilha mirabolante que os “críticos” estavam propagando, se frustrou. Mas acredito que o problema esteja justamente nos críticos, pois estes deram ao roteiro os louros e os créditos conseguidos unica e exclusivamente pela montagem. Logo, muitos foram assistir a um filme com um roteiro fantástico e viram, até sem perceber, e querer, um roteiro singelo com uma montagem profundamente genial, o que não vai sempre ao gosto de quem espera mais de um roteiro. Mas o que me encheu os olhos de novidade.


André Vargas

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Para além dos batuques, a letra



Sobre a música "Banditismo por uma questão de classe"
(Chico Science)



Há algum tempo atrás parei para perceber as letras de Chico Science. Confesso que, antes disso, eu me deixava levar por um surto dionisíaco ao ouvir as músicas e, ao ritmo da batucada, eu era completamente conduzido pelo som.
A mensagem sempre passou por mim, até mesmo quando eu a cantava, sem que eu a percebesse. Mas, um dia, mais calmo e interessado, pude pensar Chico Science, além de o sentir.
As letras das músicas, assim como o próprio movimento manguebeat, são perfeitas insinuações das críticas possíveis sobre o sistema de exclusões, além das estruturas socioculturais e as estâncias nas quais essas estruturas são formatadas. Misturando rap com maracatu e outros ritmos brasileiros, o movimento não procurava somente uma identidade para a cultura dentro do contexto nacional, mas procurava dar voz à periferia nordestina de maneira mais direta, portanto, as letras caminham nessa direção, a direção do confronto com os paradigmas e preconceitos culturais existentes.
Das letras que parei para pereceber “Banditismo por uma questão de classe” me chama a atenção pela amplitude dos seus conteúdos, que não ficam, somente, no tabefe da superfície de suas frases jogadas, mas nos faz pensar no além, nos limites entre herói e bandido, o que faz o bandido ser bandido e que culpa nós temos nessa história.
Resolvi, então, escrever, para que eu mesmo não me esqueça das coisas que pensei ao reler e reouvir a musica centenas de vezes apos ter ouvido a primeira vez. Compartilho, então, as minhas visões sobre esses temas, para, quem sabe, encontrar algum eco no próprio sistema.



“... Há um tempo atrás se falava de bandidos
Há um tempo atrás se falava em solução

Há um tempo atrás se falava e progresso

Há um tempo atrás que eu via televisão...”
O passado reflete o presente de forma concreta nessa passagem da música de Science. É perceptível que essa estrofe indica que as noções de solução presenciadas e equalizadas no presente se esgotaram, pois o princípio (enquanto passado) já estava condenado por si mesmo ao fracasso. Já que, mesmo que se fale sobre tudo, a atividade dos sujeitos permanece nula e distraída pela “cultura de massa”. O paralelismo sugerido pela repetição da frase “Há um tempo atrás” indica que os finais das frases fincam como estacas o presente contundente e contraditório, e a falha do discurso entre o que se fala e o que se vê e faz, se sustenta de maneira franca e direta na inércia inocente do próprio “eu”, posto que na última frase da estrofe a televisão, veículo de massa tantas vezes abordado e criticado por teóricos como Adorno e Walter Benjamin, assume o seu papel de gerador de ilusões de conforto e alienações: enquanto se fala dos “problemas”, das soluções, e do caminho da correção (progresso), os milhares de “eus” veem televisão e sossegam.



“... Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha
Não tinha medo da perna cabeluda

Biu do olho verde fazia sexo, fazia

Fazia sexo com seu alicate...”.
A primeira vista parece que se trata, nesse trecho, de uma espécie de aleatoriedades insignificantes que indicariam os conteúdos rasos do veículo televisivo, que, por sua vez, expõe preocupações tolas e apelos sensíveis e sexuais presas ao medo e ao desejo carnal próprio do humano. Pesquisando não é exatamente isso, mas continua sendo, sim, uma crítica do modelo televisivo que cria moldes de bandidos e mocinhos, que muitas vezes se misturam de maneira quase “osmózica” e por isso são acusados justa e injustamente – difícil acertar – de propagar algum tipo de lei de status de poder que torna essa caminho um caminho não só possível como brilhante. Pois Biu do olho verde e Galeguinho do Coque, eram bandidos famosos no nordeste e que tinham todo um aparato de construção de imagem midiática e um apelo sensacionalista em volta de sua aura.
“Biu do Olho Verde, um jovem de 17 anos, nascido nos Bultrins, periferia de Olinda, além de assaltante era torturador, gostava de submeter suas vítimas – na grande maioria, mulheres – a torturas que deixariam os roteiristas de “Jogos Mortais” no chinelo. Uma das histórias que contam sobre ele diz que, depois de assaltar uma mulher ele perguntou: “quer levar um tiro ou um beliscão?”Logicamente, aterrorizada pela possibilidade de ser baleada, a mulher optou por um beliscão. Ele, então, sacou de um alicate e arrancou os mamilos dos dois seios da mulher, que ficou agonizando de dor. O radialista Jota Ferreira, que fazia muito sucesso na época com um programa no rádio e na tevê chamado “Blitz, Ação Policial”, declarou ter-se encontrado com Biu do Olho Verde e que o mesmo desmentira todas as histórias envolvendo torturas com alicate. Em seu blog, Jota publicou uma declaração, atribuída ao bandido, que teria sido dada num encontro que os dois tiveram na década de 80:

“Jota, eu não sou 'fulêro'. Sou macho e esses cabras da Polícia são tudo maricas, 'tendeu'?...Num adianta, 'véi', tu ficar me xeretando porque tu não vai 'arrumá' nada, sacou? Num sei nem que danado é um alicate de unha, porra..! Nunca ameacei ninguém de beliscar os peitos se não me der dinheiro, 'tendeu'? Agora, já mandei uns cinco pro inferno, tá ligado?. Eu gosto de dinheiro e 'mulé'... e tem que ser boa, visse? 'Mulé' merda eu nem paro..! Pergunta às 'mulé' se eu maltratei alguma delas..!”.” (Jorlia do Ed).

É inegável que se construiu uma forma-enredo que se incorporou a histórias de herói, mas que, com artimanha, o herói não precisa mais ser necessariamente bom, ético e honesto. Os padrões sociais, sendo rompidos, para uma sociedade autoritária e bruta, já faz com que se reconheça o valor desse herói “avessado”. Mas não discutiremos a necessidade de se criar padrões de heróis que rompam com a questão ética, ou que se aproximem de um “humano, demasiado humano”, portanto falho, portanto comum. A questão da música é que a forma com que a TV e outros veículos de mídia monta seus “bandidos-heróis” se adéqua a demanda por ícones que a comunidade já possui, e nisso se valem.
“Galeguinho do Coque”, que nasceu “Everaldo Belo da Silva”, começou a praticar pequenos furtos ainda adolescente. Assim como Biu, ele era diferente do esterótipo dos meninos de rua incutido na mente de quase todo mundo: menino negro ou mulato. Como o próprio apelido denunciava, ele era galego e muito “paquerado” pelas meninas. O que tornou o Galeguinho do Coque famoso foram as suas espetaculares fugas. Ele assaltava e fugia para o Coque, ninguém o encontrava. Em 1971, entretanto, ele foi preso e condenado. Na cadeia, converteu-se à religião evangélica e abandonou o crime. Apareceu na tevê várias vezes falando de Deus e maldizendo sua pregressa vida de crimes. Everaldo Belo mudou para o bairro Alto do Jordão, na periferia do Recife, onde abriu um pequeno comércio.
Muitos não acreditavam na regeneração de Galeguinho do Coque. Alegavam que ele usava a religião como disfarce. Alguns anos depois, foi encontrado morto num terreno baldio na cidade de Moreno. Ao lado do corpo, uma bíblia com as páginas centrais cortadas, escondia um revólver calibre 38. Várias versões foram cogitadas na época. Houve quem dissesse que a cena foi armada para justificar a execução dele. O fato é que a saga desse meliante virou lenda e mora no imaginário de muita gente que viveu nessa época”.” (Jornália do Ed).

É preciso caminhar mais atento nessa história, que surpreende a brincadeira, de policia e ladrão, as questões que limitam esses seres socialmente e, principalmente, os motivos, que muitas vezes somos culpados pela conivência cultural que se sustenta nela mesma, que fazem com que esses entes sociais permaneçam de certa forma no imaginário, e de outras formas na realidade.



“... Oi sobe morro, ladeira córrego, beco, favela
A polícia atrás deles e eles no rabo dela...” ·.
            Somos expostos a ver, que o ciclo é único e o herói se confunde com o bandido também porque enquanto este persegue aquele, aquele anula o poder deste, pois ambos compactuam e coadunam numa mesma direção. Essa corrida maluca que, a primeira vista, se assemelha a caça do cão ao gato na verdade não expõe a verdade dessa relação, onde a lógica de um sustenta a lógica do outro.



“Acontece hoje e acontecia no sertão
quando um bando de macaco perseguia Lampião

E o que ele falava muitos hoje ainda falam

"Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala!".”
            A relação, quase óbvia, do banditismo nordestino com o cangaço, fato histórico que, de certa forma, influencia a noção de banditismo a nível nacional, posto que principie a série de distorções entre herói e bandido se sustenta “inconscientemente” nos dias de hoje. A cultura pautada numa ficção feita a partir da realidade expõe uma opinião, uma tendência e um lado da figura, deixando de lado sua, sempre presente, outra faceta. Essa foi a primeira tarefa da TV e do rádio jornalístico, nos seus primórdios, criar ícones, ainda que desviados, de rebeldia contra a estrutura punitiva primitiva. Claro que o erro sócio-estrutural não é o banditismo, não seria isso, longe de ser, que eu quero expor, mas, sim, o uso dessa imagem pela TV. É o que me surge ao ler a estrofe que indico. Falar contra esse processo de resposta social às exclusões sem me aprofundar nas questões da exploração seria tolo e breve da minha parte e, assim, não pretendo ser.
Fugindo um pouco da cultura nacional para falar em cultura universal, temos um ícone da ficção, e esse somente um herói ficcional, que responsabilidade nenhuma tem com a verdade dos fatos, que é o Robin Hood: herói que saqueia os ricos para dar aos pobres. Como a ficção e a literatura não são capazes de expressar as contingências do fato, mas somente nos dão a pensar alguns pormenores dos contextos, o que sobre é a abertura de uma brecha de heroísmo social que tem o seu limite no roubo comum, apesar de compreender, sem, contudo, confirmar, a noção de Proudhon que propriedade é um roubo. Ronbin Hood é um herói social, por que os ricos da história são os bandidos sociais. Dessa forma o paralelo com a realidade é verossímil, mas pode, vez por outra, resvalar em injustiças.
Nossa sociedade é capitalista, sistema que presume um ser explorador, um ser explorado, exclusões grosseiras e camadas de miséria sustentando a abonança dos ricos. Será, então que, em se pensando nesse caráter imanente do capitalismo, podemos cogitar seres bons e maus? Ou só podemos cogitar conivências comportamentais e ações? A mudança estrutural do sistema seria muito mais coerente do que nomeações injustas, pois estas não fazem sentido dentro desse sistema quase "contratual" ou consensual. Quem é o herói social? É aquele que abre o caminho para o monstro moral? Quem é o bandido social, aquele que se sustenta na ignorância dos seres explorados? Os limites são complicados e é isso que a música como um todo me faz pensar.



“Em cada morro uma história diferente
Que a polícia mata gente inocente

E quem era inocente hoje já virou bandido

Pra poder comer um pedaço de pão todo fudido”.
Nessa estrofe eu, o meu olhar, sou exposto ao alicerce capitalista, onde se delimitando o bandido como aquele ser explorado, excluído que pratica a ação de roubar, matar, romper com os códigos de conduta, cria-se a barbárie do miserável. A expectativa quase nula das suas próprias vontades, implica na razão da pequeneza, essa mesma razão, exposta pela mídia, usada pela política e assegurada pelos exploradores. O pobre rompe o código, para matar a fome de maneira pobre, mas não é só um desmerecer do crime miserável, como se o crime do colarinho branco fosse mais digno, mas, sim, mostrar que esse ser, que ora ou outra é usado como ícone midiático, para sustentar o status de poder marginal, interessantes aos ricos, é, naverdade, um núcleo de alienações, que não deixa passar nem mesmo o conhecimento perfeito de suas próprias ações.


 “Banditismo por pura maldade”
“Banditismo por necessidade”
“Banditismo por uma questão de classe.”.

A noção de maldade, de pura maldade, é que complica nesse final de letra, pois há maldade, sim, aqui ali e acolá, de forma que parece que a maldade é sistemática, o sistema capitalista inclui ainda esse dissabor. A existência de castas sociais desprezadas é pura maldade; um ser humano ser levado, quase exclusivamente, ao crime, previsto no código, é pura maldade; o sistema que faz com que nos odiemos constantemente e sejamos preconceituosos é pura maldade; a violência psicológica e física do crime, é pura, também, maldade. Só que podemos tentar separar, devido ao grau de consciência dos atos, inseridos, pelos seus atores, o que tornaria mais significativa a critica de Science, pois a "necessidade", exposta na segunda frase, faz com que os atores ajam de maneira, comumente, mais desesperada e menos pensada, ou mesmo de maneira resignada do tipo: “não tenho nada a perder, minha vida é uma merda e eu não tenho outra escapatória”. Portanto, a pura maldade estaria diretamente atrelada ao esclarecimento, a falta de necessidade, enquanto as outras manifestações violentas teriam mais a ver com um tipo de maldade reflexiva.

Já a questão de classe, no que entendo, é tudo isso, é exatamente o banditismo presumido e inato ao sistema capitalista, que separa em classes (beneficiadas e marginais), o bandido que todos somos em alguma estância, já que o capital nos induz a tais e tais comportamentos e o bandido que somos culpados de existir, já que não exigimos a desconstrução (perceba que eu não disse destruição) do capitalismo como se encontra.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Para além do racismo, o egoísmo

                                          http://www.youtube.com/watch?v=WNM4txmV0Lc


Muita coisa a se analisar quando percebemos a quantidade de compartilhamentos do vídeo onde o ator norte-americano Morgan Freeman dá a sua opinião sobre o dia da consciência negra. Tanta coisa a se pensar, coisas que estão sendo deixadas de lado por quem põe esse vídeo em seu mural.
Existe uma forte, porém rasa, ideia que indica que, ao se fortalecer os grupos e as lutas dos "ditos" minorias se dá justamente o estabelecimento e o consentimento do preconceito que eles sofrem cotidianamente. Isso é uma falácia que em nada se justifica.
Não é necessário ser um antropólogo com anos de leitura e pesquisa para se perceber que o preconceito, o racismo, e os frutos da ignorância do homem como um todo, já estão estabelecidos culturalmente em virtude de construções e conjunturas sociais de exploração, ou seja, não necessitam de nada para existirem, pois já chicoteiam o lombo do povo. E, ao contrario do que pensa o homem mediano, é exatamente nesse reforçar das mesmas conjunturas dos preconceitos que faz com que uma história não se acabe e o explorado não se cale, em claras palavras, desse retomar das questões criticas que surge a luta. É claro que só o dia da consciência negra não é a solução para nada disso, claro que existem ignorâncias ainda não suplantadas inclusive nos movimentos que buscam romper com as estruturas preconceituosas. Mas não é possível que neguemos que dizer “Por que um dia da consciência negra se não há um da consciência branca?” ou ainda “para acabar com o preconceito basta que não falemos mais nisso, não me trate como negro que eu não te tratarei como branco e estaremos quites!” sejam pensamentos, se é que podemos assim chamar, inocentes e inconsequentes, no mínimo.

Parece-me realmente muito pequeno e mesquinho esse pensar, mas vamos analisar mais a fundo essas duas frases-argumentos tão típicos dos nossos queridos pequenos-burgueses-pardos-desorientados, ou seja, os ignorantes da exploração social e das espoliações raciais (e que, assim, parecem querer permanecer) .

Por que um dia da consciência negra se não há um da consciência branca?
Porque só se tem de reforçar a luta e a força daquele que é oprimido; que tem sua cultura  subjugada; que sofre historicamente e desde o nascimento com uma série de obstáculos que lhe são impostos pela sociedade única e exclusivamente pelo tom de sua pele, pela região da qual ele provem, pela sexualidade, pela religião e assim por diante.
O discurso hetero-caucasiano-macho não é plausível, pois com ele se pretende anular as questões basais da nossa sociedade estratificada e explorativa. Porém é perceptível que pessoas com algum esclarecimento também corroboram para esse tipo de pensar, aquelas mesmas que, como eu já disse, acham que o racismo tem que acabar, mas tem que acabar no silêncio das questões, e não na luta pelos direitos. O que, na minha opinião, é querer velar ainda mais a nossa, já tão opaca, história podre.
Alguém seria capaz de dizer que para se acabar com o ranço social da ditadura basta que não falarmos mais nisso? Ou que para minimizar as dores do nazismo e para que esse tipo de ignorância não ocorra mais basta que nos calemos? Ou ainda, que sanaríamos, de uma vez por todas, a nossa dor universal pelas destruições da santa inquisição, somente nos calando?
Acho difícil, portanto não calemos a luta das minorias e não demos força para o discurso burro-fascista da camada privilegiada e que, mesmo com a formação e a informação facilitada, prefere ignorar.

Para acabar com o preconceito basta que não falemos mais nisso, não me trate como negro que eu não te tratarei como branco e estaremos quites!
Essa questão circunda a outra que levantei anteriormente. Parece-me claro que não basta a gente fingir que não percebe as diferenças, elas existem factualmente impostas e se estruturam na nossa cultura de tal forma que quase nem percebemos mais quando estamos, ou não, sendo racistas, machistas, ou qualquer “ista” do tipo. Por isso penso que muita gente está se deixando possuir por “istas” quando publicam esse vídeo, mesmo sabendo que essas mesmas pessoas, muitas das vezes, só estão querendo demonstrar que não gostam de racismo, que o mundo não precisa disso e que a vida devia ser igualitária e melhor para todos. Ok, mas não podemos, com as ideologias, anular as lutas que temos que travar diariamente para que os direitos sejam iguais e, ao fazermos isso, chegamos ao “ista” mais deplorável que existe. Ao fazermos isso, ao anularmos a luta em virtude de uma felicidade cor de rosa, de um mundo de uma só cor: a cor humana, somos egoístas.
E nada é mais egoísta do que achar que o nosso sonho tem que ser real para todos, que nossos ideais tem que ser alcançados pelo o mundo. E que a luta e o embate cultural não vale tanto a pena quanto o silêncio do fingir que não se vê o que se sente. Morgan Freeman é, nesse caso, um símbolo do egoísmo mais puro, pois é, no momento em que se pronuncia, aquele que se esquece da dor dos seus antepassados; da dificuldades que enfrentou por ter como identidade estigmatizada a própria cor; das crianças ao redor do mundo que vão ter as mesmas dificuldades ou até maiores do que as dele... Quando eu digo dificuldade eu não estou dizendo incapacidade intelectual, que isso fique bem claro, pois é justamente por essa extrema capacidade intelectual que, apesar das circunstâncias contrárias, temos grandes e belíssimos exemplos de pessoas bem sucedidas socialmente que são a "exceção da regra", o que, claro, não garante a elas, diretamente uma felicidade ou uma perfeição em todas as suas atitudes (somos humanos - eternos ignorantes de alguma coisa). O próprio Morgan Freeman é um caso exemplar, um ícone excelente da exceção, apesar de a análise da situação negra no EUA e no Brasil partir de diferentes pontos de exploração e luta. É exatamente o caso de alguém que construiu o seu sonho na realidade, carreira de sucesso, fama, dinheiro, status social... Mas nem por isso, nesse assunto ao menos, deixou de ser ignorante e egoísta.