segunda-feira, 10 de junho de 2013

O meu olhar manifesto

Eu nunca fui um sujeito engajado, na prática, em causas políticas. Tenho, inclusive, muitas ressalvas aos partidos, às legendas e a cegueira das doutrinas partidárias que não sustêm uma autocrítica construtiva ou uma possibilidade dialética de renovação, ou melhor, de desconstrução de seus saberes. Mas, sempre nutri meus pensamentos sociais críticos com leituras e tessitura de textos que acabam por refletir, além da minha aporia prática (minha ausência em passeatas, manifestos e protestos) a minha hiperatividade e o meu incomodo criativo político-social (meu olhar sobre as questões comunitárias ao redor).

Porém, sinto uma sede imensa de me manifestar, quando uma causa me toca por sua inequívoca pluralidade: abarcando todas as classes e posicionamentos políticos; causas que tratam do bem comum mais perceptível; causas que deveriam nos unir, pois refletem no que todos nós sofremos; causas como a do manifesto que participei hoje, contra o aumento abusivo das passagens no transporte público.

Na semana passada, ao ver as manifestações de São Paulo pela mesma causa, comecei a me questionar sobre a postura do carioca diante dos abusos nas tarifas, e seus aumentos, cobradas sobre qualquer produto, tornando o Rio de Janeiro uma das cidades mais caras do mundo, e pensei em todos os clichês de estigma carioca para poder responder à uma possível inércia do povo. Mas comecei a ver pelo facebook uma movimentação de agrupamento e manifestação contra o aumento das passagens que prometia juntar muitas pessoas que, como eu, não aguentam mais os descasos sofridos e conseguem sair do trauma da violência da exploração de seus trabalhos e estudos para poder criticar os rumos da nossa sociedade.

De pronto aceitei me juntar a esse “ato unificado”, já sabendo que lá estariam os partidos de sempre, os gritos de ordem de sempre e a cara de sempre, não a cara do povo - pois esse ainda não consegue escapar do trauma da violência da exploração de suas vidas, já que havemos de ter, para isso, uma força extra, a força da consciência social-, mas a cara do jovem de classe-média engajado e politizado, que fazem parte de uma microelite ideológica (eu era, lá, mais um com essa cara).

Não gosto de muvucas, aglomerações ou qualquer dez pessoas, sinto que grupos tendem a criar descontroladamente um pensamento devastador de uma hora para outra, pautados na coragem que passam a possuir os indivíduos coletivizados e massificados. Um grupo passa a pensar por si e o pensamento individual acaba por escapar. Gosto de manter minhas escolhas intactas. Mas lá estava eu com vergonha de gritar, de pular, de bater palmas, mas indubitavelmente presente e ciente da força do ato de protesto.

Tremulavam bandeiras de partidos e retumbavam vozes juvenis nos megafones e microfones, algumas caras percorri em busca de uma companhia conhecida, alguns conhecidos, mas ainda não me deixo chamar de “companheiro” qualquer que seja a criatura.

O ódio, e o desejo de combate masoquista já estavam estampados no rosto dos policiais que cercavam a movimentação, falavam e pensavam entre eles as atrocidades que fariam com aquele bando. Deglutidos e digeridos, como estão, pela doutrina lógica do estado forte de repressão, preparavam suas armas para combater a baderna.

Partimos da Cinelândia, onde nos reunimos em frente à Câmara municipal dos vereadores, para a Rua Araujo Porto Alegre rumando para a Rua Primeiro de Março. Parando, vez por outra, em frente aos prédios emblemáticos do paradoxo da justiça na cidade e no estado de onde pude ver tudo com clareza, apesar de estarmos em, mais ou menos, trezentos manifestantes para a mídia e seiscentos para os manifestantes. Eu estava andando pela calçada cômoda e investigativamente.  Não havia imprensa ao lado, noticiando a manifestação, muitos fleches salpicavam de fagulhas os olhos, mas eles eram nossos, éramos nós a registrar os nossos momentos. A ausência da imprensa e a predisposição da PM me fizeram calcular a obviedade: qualquer pequeno estranhamento transbordaria o caldo da pacificidade. Uma agonia me tomou quando um punk anarquizou a bandeira nacional e a pôs em fogo, percebi ali que uma parcela bem pequena estava disposta ao conflito tanto quanto os policiais.

E eis que, chegando à Primeiro de Março, os PMs prendem um daqueles punks que atearam fogo à bandeira. As pessoas recuaram do caminho do protesto e clamaram por justiça quando viram o rapaz sendo detido. Era a deixa que a policia precisava para começar o que previra desde que ouviu o brado “Acabou o amor, isso aqui vai virar Turquia!”. Aproximadamente cinquenta homens do batalhão do choque e uns tantos PMs com suas bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, cassetetes e spray de pimenta..., açoitavam a todos que lá estavam. Junto com a truculência se seguiam injúrias “Vagabundo!”, “Sai daqui, cachorra” numa obra de horror vivo e vertiginoso... Os gases eram espirrados a uma distância ínfima dos olhos das pessoas que estavam nas calçadas e que, às vezes, nem parte da manifestação eles faziam.

Os manifestantes não conseguiram se reunir novamente. A polícia dispersava, ainda com truculência temperada com pimenta, qualquer reunião, inclusive para pegar (e pagar a R$ 2,95) o ônibus.
Eu nunca tinha sentido antes o efeito do spray de pimenta, mas posso dizer agora, de onde eu estava a ver, que a minha vontade de chorar se deu mais pela forma como tentam nos calar do que pela irritação nos olhos. O mais gozado é perceber que o policial também paga a passagem e, talvez, também a acha injusta, mas ele não consegue perceber a comunidade desse grito, desse gesto e nem tão perto do nosso tempo fará o que bem devia: juntar-se e lutar do lado certo.

Ficou claro para mim que muitas coisas, infelizmente, não mudaram nos movimentos estudantis, partidários, esquerdistas..., inclusive, o que já falei, e que talvez seja o pior dos indícios, a nossa cara de elite. Mas também ficou claro para mim o quanto os nossos brados são inconsequentes e infantis; o quanto nossas ideias de manifestações são fórmulas copiadas de outros lugares. Ficou claro que um ato unificado, que seja, tem que ser organizado para que pequenos grupos não fujam do tema e se inflem sobremaneira e, mais do que isso, ficou insuportavelmente claro, para mim, que não temos a noção de povo que devíamos, a noção de que somos um só e único povo, mas, sim, destacamos o carioca ordinário que quer voltar para casa, ver novela e descansar - que quer esquecer o trabalho do dia-à-dia, e para quem qualquer pensamento crítico é coisa de vagabundo, desses mesmos “vagabundos” (que logo somos),  que deviam agir numa mudança de consciência desse ser-senso-comum massificado e explorado, mas, pelo contrário, se fecham na crueza de uma ideologia do bem comum presa a elite esclarecida e burguesa para poder criticar a ignorância do restante.

Sobre a polícia, só posso concordar com o nosso filósofo Vladimir Safatle que escreveu o artigo na Folha de São Paulo “Pela extinção da PM” e rezar para que um dia isso ocorra. Sobre a imprensa, só posso dizer que a ausência da imprensa foi cômoda, pois ela pôde depois dizer o que, alias, já disse: “Ninguém sabe quem começou o confronto” - eu sei. Sobre o prefeito Eduardo Paes, eu só espero que ele cumpra o combinado se o Brasil perder a copa para a Argentina e sobre o transporte, eu vou continuar criticando, suas tarifas e serviços, mesmo que eu seja obrigado a usar, e me calar por instantes coléricos, do mesmo.


André Vargas

terça-feira, 21 de maio de 2013

A Tarsila é popular! – Didatismo na história da arte e senso comum



Antes de tudo é preciso que eu localize o princípio desse meu texto. Estou trabalhando ao lado de figuras ilustres da nossa arte brasileira, como Tarsila, Pancetti, Di Cavalcante, Hélio Oiticica, entre outros, no Museu de Arte do Rio, e convivo com a opinião do "público" sobre eles.

A popularidade, como sabemos, exibe muitas facetas e nem todas elas são saudáveis. Com a popularidade, por exemplo, no que se destina a arte, vem o senso comum, as doutrinas e os discursos da industria cultural e a proximidade de uma massificação da própria arte, como bem dizia Walter Benjamim: "o fim da aura". Portanto é de suma importância relativizar e criticar os "avanços" que os mecanismos impõem, de qualquer tipo de arte, sobre o povo. Devemos muito dessa popularização à educação, ou melhor, ao didatismo da arte nas escolas, o que é um grande passo para construção de um povo forte e consciente, porém com seus problemas, devido às brevidades das abordagens.

É bom ver que todo mundo, ou quase todo mundo, reconhece Tarsila do Amaral de longe, sem pestanejar, sem muitas dúvidas (às vezes escorregando em Djaniras e Malfattis), mas realmente são icônicas, emblemáticas, e identitárias a ponto de serem referenciadas pelos brasileiros comuns, as representações dessa artista.
“Uma identidade!” é o que dizem todos que avistam os quadros da “senhora antropofagia”, “Não tem como não saber, é a cara dela!”. De fato os quadros dessa etapa tem algo em comum e é mais ou menos um pouco de tudo o que nós conseguimos decifrar: formas arredondadas, despreocupação formal, o uso de cores primárias e vivas, temática que envolve a identidade nacional, a desproporção acentuada, entre outras coisas que se pode enumerar. Mas está em enumerar, que advém da ideia de que temos que nos posicionar como críticos maniqueístas, sabedores do que é bom e ruim, o erro da questão.
De algumas décadas para cá as escolas começaram a trabalhar muito a ideia de o modernismo ser um período artístico no Brasil de “ruptura” com a simples reprodução dos conceitos artísticos estrangeiros, para ser a “reprodução digerida” e seletiva do que é bom, sem esquecer a nossa identidade, identidade esta que se pautaria exatamente nesse digerir, como o canibalismo (antropofagia) de algumas tribos de nossos “povos originários”, os indígenas, sugere; reforçando, assim, um símbolo de brasilidade, já preexistente nas formulações ideológicas do movimento, introduzindo alunos e professores brevemente nessa história tão cheia de pormenores e contextos. Outras formas de propaganda de fixação foram também parte responsável, na criação desse discurso opinativo e de gosto que se formou, especificamente, pelos quadros de Tarsila, como o uso de suas pinturas em contracapas de cartilhas escolares e etc.
A reboque dessa identificação, desse reconhecimento, tanto de crianças, como de jovens e adultos, está, contudo, aquilo que a escola consegue fazer melhor hoje em dia: criar e fortalecer o senso comum. Melhor dizendo, ainda que se tenha o reconhecimento que se merece, a arte da Tarsila é vista de maneira técnica pelas pessoas que a reconhecem e o primeiro sintoma dessa tecnicidade é a opinião.
Quando me refiro a “maneira técnica” quero exemplificar um olhar que Heidegger enunciou como um sinal dos nossos tempos modernos, um olhar que pretende prever o que se pode ganhar em tudo o que há no mundo, o que serve e o que não serve, inclusive na arte. De modo que essa maneira técnica de ver a arte só percebe o que a arte não é: alvo. Sendo assim é um olhar breve e nebuloso que se experimenta.

A opinião negativa

Talvez essa seja o sintoma mais perceptível, pelo menos no que tange ao senso comum tecnicista. Torcer o nariz, dizer que não gosta do “estilo” dessa pintora, achar que ela não sabia pintar, que qualquer um pode fazer igual, ou mesmo que a Tarsila pintava como uma criança..., exemplificam a forma brutal de suspender o contato com a arte exibida e se sustentar na sua própria ignorância. Todos podemos dizer que gostamos e que não gostamos de qualquer coisa, mas daí a dizer que tal pessoa não sabia pintar é ignorar a história dessa pessoa, e desconhecer cegamente aquela artista enquanto tal. Dizer que é fácil fazer é desconhecer o oficio de pintar. Na prática nunca é fácil. Dizer que ela pintava como uma criança é desconhecer totalmente o movimento e as ideias envolvidas. De toda a forma é ignorar a artista. Mas a arte é a que mais escapa nesses quesitos estáticos, pois o contato já ficou diluído por preocupações técnicas que nem sequer se sustentam na critica ao artista (algo menor, na minha singela opinião, do que a arte).


André Vargas

domingo, 12 de maio de 2013

“O funk não é contemplativo, é dionisíaco” – O trajeto da bala perdida cultural: As mensagens, as entrelinhas e a dança



Eu venho pensando muito sobre o funk de uns tempos para cá. Na verdade, eu sempre gostei de ficar antenado às novidade e até de antecipar quais seriam as musicas mais tocadas nas festas de quinze anos e nas formaturas de colégio, porém venho, por esses tempos, pensando no papel crítico, ou melhor, naquilo que se insere o funk como cultura e como traço óbvio de nossa identidade sociocultural; naquilo  que indica o funk como uma chaga exposta das segregações sociais e, ao mesmo tempo, uma arte com capacidades múltiplas e muitas ainda não exploradas. Tenho pensado, com isso, na relevância de algumas mensagens, nos símbolos que estamos criando de “resistência” ou de "conformidade" e até mesmo - papel bem menos nobre e divertido do que antecipar tendências de bailes - tenho pensado no que e no por que das coisas que pessoas, como eu, pensam ao ouvir funk ou ouvir falar de funk.
Já não se faz mais necessário especificar aqui no Brasil, sobretudo no Rio de janeiro, de que funk estou falando, ainda mais quando digo que esse estilo musical ainda sofre algumas barreiras estigmatizastes, tanto da crítica – seja ela elitista ou pseudo-pop – quanto do próprio funkeiro. Enquanto o estigma da crítica, geralmente explicita um preconceito social secular deixando, assim, de ver o lado hierarquicamente ruinoso da cultura, ou relativizam de forma inocente os conteúdos na tentativa de tornar as mensagens emblemas de algum pressuposto teórico da própria elite; o estigma da do funkeiro está nos símbolos adotados de poder, nos devaneios ostentosos do capital, nas referências esdrúxulas à cultura pop norte-americana, ou seja, está exatamente naquilo que o oprime. Desse modo é o próprio recalque do funk, que faz com que o seu alcance seja, em alguns âmbitos, interrompido ou diluído.
Não é difícil perceber que a mácula da ostentação de um status social ilusório, transitório e, por vezes inexistente, como o Poder sobre o outro sexo a partir do dinheiro, de posses ou de qualidades pessoais especiais como a pró-atividade sexual, apesar de serem demonstrações de um tipo de construção de autoestima de um povo que sofre com a desvalorização desses ícones, são caminhos que só dizem a favor da máquina opressora e são, ainda, caminhos que criam em torno de si um sentido lógico nessa sociedade exatamente enquanto doutrinam e iludem os que se intitulam como tais. E o que se deveria perceber é que estes são verdadeiros exemplos do quanto está exaurido de ideias claras sobre si a população mais explorada e carente de estima.
“Sou foda!”

Assim, parece presumível que se diga que há muito mais contexto no que o funk não diz do que no que ele diz, melhor dizendo, a exata antítese das suas letras revela muito mais sobre a realidade do que os símbolos de poder que ela propaga: seus carros importados, suas mulheres lascivas e voluptuosas, suas lanchas, seu desempenho sexual, seus amigos fieis, e sua grana infinita, dão lugar às dezenas de prestações de um carro popular, suas aventuras amorosas, cada vez mais breves e superficiais, seus amigos comuns e sua bufunfa módica e suada, quando há. Mas esses – apesar de serem muito constantes, ainda mais porque a indústria cultural se apossou da produção, e forçadamente reproduziu essa ideologia de sucesso à exaustão, de forma que isso acabou inoculado quase que totalmente no ideário popular – são casos específicos dentro de uma multiplicidade gigantesca que se pauta no eterno por vir dessa história.
Temos que mencionar o papel importante de MC’s como MC Leonardo, com suas rimas de contestação social como “Ta tudo errado”, que além de politizadas, carregam consigo a mensagem crua e dura da realidade da qual somos apartados em nossos apartamentos. Não dá também para não nos lembrarmos de tantos outros, hoje no ostracismo, mas que ainda são lembrados pelos DJs e pelos dançantes das pistas nas festas e que tiveram papel importante nesse sentido de contestação e de apresentação dessa realidade calada e culpada antecipadamente como Cidinho e Doca entre outros.
Poderíamos falar da parte humorística dos funks ou de muitas outras vertentes atuais e antigas, mas não podemos negar que o giro capital e o status adquirido estão cada vez mais reinando sobre qualquer tipo de mensagem e assim devemos ler o funk nas entrelinhas psicossocial, mais do que no “papo reto que eles vão mandar pa tu”.

De modo inquebrantável o funk é um ritmo único, que bebeu de misturas eletrônicas americanas e batidas afro-brasileiras, de uma forma que se tornou quase um ritual xamã de extravasamento do ser, e essa frase de Francisco Bosco (colunista do jornal O Globo), “O funk não é contemplativo, é dionisíaco”, da qual me apossei para título desse texto, realmente encerra no que o funk é enquanto prática comunitária. Realmente o ritmo é contagiante (claro que de forma benéfica para alguns, enquanto esse mesmo contágio não é bem quisto por outros) e realmente há alguma coisa de dionisíaco no funk. Existe algo que vai para além do que se diz, existe uma manifestação corporal de quase transe, de excitação, de sexualidade e de inspiração ao exagero dos prazeres que é indissociável do funk, e, talvez por ele carregar esse caráter de exuberância dos prazeres da carne é que se possa esperar de tudo do funk. O colunista faz quase uma ode a um recente tipo de dança criado na cultura funk, que como tudo que é da cultura funk, bebeu de culturas diversas e criou uma maneira única de execução: o passinho, e através de sua admiração à estética e a plástica da dança sentenciou que o funk não é contemplativo e sim dionisíaco. Concordo em partes com o Bosco, principalmente quanto à forma prática e à fruição frenética dos dançantes, mas vejo na história do funk e nas mensagens que por vezes ele transmite muito mais de sua importância social. Podemos e devemos ler o funk em todos os seus sentidos.


André Vargas 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre o filme "Meu pé de laranja lima" e a aproximação do sensível



O filme conta uma história de aventuras imaginárias, travessuras e molecagens, de ganhos e perdas pessoais que amadurecem, do personagem Zezé. Amadurecimento que nos é visível durante toda a trama. Um moleque incrivelmente prodigioso, mas com uma profunda carência de afeição que se simboliza bem com a sua lista de amigos que cresce e diminui através das contingencias de sua vida.
No longa-metragem de Marcos Bernstein, roteirista de filmes consagrados como Central do Brasil, assim como no livro base de José Mauro de Vasconcelos (“Meu pé de laranja lima”, 1968), a dor da perda é uma constante e Zezé (João Guilherme Ávila) em sua coleção de amigos experimenta as tristes sensações da impotência humana quanto à efêmera e insegura força da vida: pessoas queridas que vão embora, outras que chegam e até mesmo inimigos que viram a casaca e se tornam nossos melhores amigos. Assim se encaminha o roteiro, nesse melancólico e harmonioso drama comum, que tem como diferencial o ponto de vista da criança, a inocência e o ímpeto de fazer (nem sempre certo) de quem vive uma infância pobre, mas colorida pela imaginação.
O título faz referência a um dos personagens da trama, Minguinho, o pé de laranja lima, que se torna um dos grandes amigos de Zezé e demonstra, mais uma vez, o grande poder criativo do garoto, que é capaz não só de conversar com a árvore, mas de ouvi-la e de aventurar-se com ela. No filme o personagem Minguinho e sua relação ficam um pouco diminuídos, mas outras sensações e ideias se tornam mais fortes como a crítica a falta de compreensão, de diálogo e de proximidade, entre aquele adulto que pensa que se tem que corrigir as crianças a todo o custo e as crianças que escapam brilhantemente das imposições morais por causa de seu olhar sedento por vida. A poesia das verdades infantis e das intenções mais singelas do garoto, e a sua vontade de se sujeitar, apesar dos pesares, e agradar o outro.
Nessa história de perdas e ganhos, chega-se a um momento em que muitas perdas se sobrepõem e criam um choque catártico, não só no personagem, mas na plateia, obrigando ambos a sentirem tamanha dor que “amadurecer”, se é que isso é realmente bom, parece ser o único caminho, porém o Zezé adulto (interpretado por Caco Ciocler), ao final do filme, mostra que ainda permanece dentro dele o espírito arteiro do menino que foi. Então, a história bate e combate a intransigência e ignorância dos pais coercivos, ao mesmo tempo em que é uma ode a certo tipo de “liberdade” moral, onde podemos dizer que é preciso manter sempre vivo o passarinho que existe dentro de nós. Porém é perceptível que a nossa sociedade está em curso para que uma história de amizade entre uma criança e um adulto seja fruto de julgamentos diversos e, por horas, perversos. Nessa história, há uma relação “secreta” de amizade e de amor entre um garoto (Zezé) e um adulto (Portuga - José de Abreu) e não é difícil imaginar pessoas criando e rotulando questões éticas na mesma. Porém a trama desmistifica essas questões do velho e bom “não fale com estranhos” e traz a ternura mais verdadeira que possa existir entre dois seres humanos, de forma tão completa que julga-los mal parece ser o maior de todos os crimes. A relação entre eles é o primeiro contato afetuoso que o garoto conhece e, talvez, o último do adulto, marcando, assim, os personagens polarizados (velho-moço) como iguais; um detonando no outro, emoções que os ligarão para sempre. 

“Meu pé de laranja lima” é poético, profundamente simples e detona uma dor marcada e vertiginosa, como passos de quem corre em direção aos trilhos de um trem que se aproxima, além de transbordar uma ternura óbvia em quem o assiste, que consiste no ato de identificar-se, na compaixão. É um filme onde se pode perceber com graça a mão do diretor em imagens poéticas importantes como a sombra do pai – o pai como uma sombra de homem -, no momento em que o pai rouba-lhe o dinheiro ganhado escondido; as imagens afeições deformadas dos rostos nos atos violentos do Portuga, do pai e do próprio Zezé e nas transições de cenas. É, ainda, um filme para quem consegue ver a beleza e a importância que há na tristeza, na pobreza, mas, sobretudo, naquilo que suplanta (e talvez daí brote, como uma árvore num terreiro velho) tais situações: o amor e a fantasia. Tecnicamente, os atores trazem a carga perfeita de intimidade; a trilha, a fotografia e a montagem são primorosas, portanto, é um deleite artístico-experiencial, além de tudo o que o roteiro deflagra em nós em ideias e associações.


André Vargas

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Decifrando Valesca Popuzuda - O abismo do pensamento no relativismo cultural ou onde foi parar o feminismo?

É importante, antes de mais nada, salientar o salutar esforço que hoje se faz para tornar esses limites entre a cultura popular e cultura erudita obsoletos, mas é preciso perceber que esse caminho guarda algumas armadilhas alienantes inesperadas, como a generalização dos sujeitos e dos gostos, a falta de crítica dos gostos e das manifestações, o esgotamento teórico e o discurso vago do rebelde típicos do relativismo cultural.
Relativismo cultural: Há algum tempo essa forma de pensar a cultura me causa cera estranheza, não por ela considerar como importantes (como são) camadas culturais que antes eram subjugadas (e ainda são) e alvos certos de preconceito (idem), há de se admitir tais problemas e de combatê-los com grande afinco, porém não é somente com o combate e com o rompimento dessas estruturas sócio-culturais que nos aparecerão mais claramente os códigos desses seculares desníveis impostos e carregados pelas elites culturais.
De toda a forma a moda pop, carregada com gosto pela classe média e que, assim, acaba mal sustentada em virtude da insegurança identitária, do fetiche que há na alternatividade a todo o custo e da sede de inclusão social da mesma, vem tornando essa disputa mais forte e cega do que deveria esta ser. Tornando aqueles que são contrários a esse pensar alvos de estigmatização intelectual.
Em fatos, minhas críticas já soavam reacionárias aos grandes mártires da cultura pop genérico-generalizada, antes de as birras intelectuais e jornalistico-opinativas, ocasionadas pela notícia de um estudo do Feminismo à partir das letras de Valesca Popozuda ecoarem pelo paraíso mórbido da internet, mas esse tórrido combate me pôs, novamente, em posição fortemente crítica, que, ao que parece, escapa das duas frentes,  da ignorância rompante da jornalista à inocência crítica do estudo.


De modo algum acho que não se deva estudar a cultura pop, ou qualquer manifestação que desse modo cultural tão amplo surja, ainda mais no contexto da arte brasileira: seja Funk, Pagode, Axé, Sertanejo..., o que for. De maneira alguma eu negaria aqui a importância única do popular na nossa identidade e nos nossos afetos. O que discordo é da generalização, ou até, da falta de escrúpulos críticos para se defender uma causa qualquer. As pessoas dizem "O Funk é bom (gosto generalizado) e tem que ser estudado", vamos descriminar um pouco mais as coisas como acho mais verdadeiro em se tratando de cultura, o certo seria dizer "o Funk é importante e tem que ser estudado". Assim, estando o pensamento de acordo com a frase que expus, fica mais visível que temos uma variedade de coisas a serem analisadas que falam "à favor" e "contra" o Funk, e não somente, o que é armadilha típica de nosso tempo, o vago dizer "O Funk é bom" e temos que mostrar que ele é bom custe o que custar.
Não sei se me faço claro, mas é preciso muito cuidado com essas determinações breves de causa para não se perder na hora de escolher um objeto representante. E aqui estamos nós, por causa de uma ruidosa escolha propositalmente polêmica, nessa madrugada, analisando letras da Valesca Popozuda para tentar achar o que se diz ser o feminismo em sua forma contemporânea. Então, destrinchemos alguns trechos coletados que simbolizem de uma forma digna o total da obra da Valesca, para não correr o risco de ser injusto ou ignorante. Não estou querendo, com isso, diminuir a arte, o Funk, ou a Valesca, mas, antes de tudo perceber a incongruência entre o argumento dos defensores de que haja nessas letras alguma coisa da força feminista:



"E aí seu otário
Só porque não conseguiu foder comigo
Agora tu quer ficar me difamando né?
Então se liga no papo
No papo que eu mando

Eu vou te dar um papo 

Vê se para de gracinha
Eu dou pra quem quiser
Que a porra da buceta é minha"
(A porra da buceta é minha)

Acho que é nesta música que reside a maior dificuldade, ou melhor, a maior tendência, ao se destacar um comportamento de poder sobre o outro sexo e de intimidade com o seu próprio, como feminismo, mas percebamos que não é exatamente no domínio (que antes era do sexo oposto) do outro que está a intenção equânime da luta feminista. Essa música mais me parece uma resposta afetada e ofensiva de uma mulher que foi ofendida igualmente. Se for essa a igualdade: igualdade de peso de resposta, que se trata o feminismo contemporâneo, aí está a letra-hino! Mas acredito que a luta feminina não é para responder ao homem como homem, mas, sim, para exercer o feminino sem problemas, sem julgamentos, sem subordinações ou estigmas. E ser livre sexualmente, não é exercer o feminino tampouco e sim exercer a humanidade, logo, afirmar fazer sexo com quem quiser, apesar de ser uma vitória perto da mulher de séculos passados, de longe não significa absolutamente a luta feminista em seu complexo e difícil caminho.

"Você quer o meu corpo
Você quer minha buceta
ou você prefere que eu te toque uma punheta?
Você quer o meu corpo
Você quer minha buceta
ou você prefere que eu te toque uma punheta?"
(Solta essa porra)


A expressão "mulher-objeto" já está basante batida e utilizá-la acaba parecendo machista, pois trata-se do conceito masculinizado do que deve ser a mulher moral e eticamente. De jeito nenhum a liberdade sexual deve ser reprimida por quem quer que seja, mas temos que perceber no que a nossa liberdade acaba por nos aprisionar justamente no que nos desvencilhamos. É importante notar, não como moral, mas como questão feminista, que o sexo como ruptura é só um passo que, concordo, deve ser desmitificado e dessacralizado, mas não, objetado no desejo masculino, deve ser assumido como identidade feminina, pois assim já fazem os machistas. Logo, essa postura é a liberdade sendo usada para voltar para a prisão do que é comum na sociedade machista. Nada de novo surge quando a mulher se objeta no desejo do homem interessado por sexo, ao menos não enquanto o homem ainda estiver acostumado culturalmente com essa proposta, que, por ventura, ele mesmo criou.



"Amante meu papo é reto, comigo tenta quem pode, a sorte está lançada, se não gostou me engole.

Ô fiel, recalcada, o melhor é ser amante enquanto eu como seu marido tu se acaba lá no tanque, lava passa e cozinha, faz tudo direitinho, e só pra te deixar bolada eu tô comendo seu marido, eu tô comendo o seu marido.

Se não gosto, me engole. Eu tô comendo o seu marido, se não gostou me engole, eu tô comendo seu marido .."
(Amante X Fiel)

"vou te dar um papo reto
é melhor ficar ligado
não deu conta do marido
vai rolar a cachorrada
e se marcar eu como mesmo
não deu conta eu como mesmo
tu ta marcando eu como mesmo"
(Se marcar eu como mesmo)

Já essa duas músicas caberiam em uma outra crítica, esta destinada a mídia que tenta naturalizar a traição masculina e isso já aparece como constante em algumas novelas, onde se cria uma relação humorística entre as personagens resignados das mulheres e um relação de coitado dividido do homem que acabam por levar a aceitação do público daquele sujeito que mente, omite e engana e também leva ao ideário do publico feminino ordinário a relação romanceada de estar nessa situação, onde a recíproca, ou seja, se ela mesma trair, não será verdadeira e aceita. Não há, como podia, uma lição sobre a monogamia, ou sobre as formas de se viver o corpo, o amor e as vontades com verdade e possibilidades para ambas as partes, mas se propaga a mentira do homem como certo gracejo e certo charme enquanto essa possibilidade geralmente é negada à mulher. Não consigo ver feminismo ai também! E nessas músicas também é perceptível que se quer dar um poder à amante que ela na realidade não tem, pois ela se contenta em ser o sexo do jogo, onde o sexo surge como a parte mais importante... difícil questão, mas tendo a entender como recalque afetivo nos contextos atuais.

"Eu vou pro baile procurar o meu negão,
Vou subir no palco ao som do tamborzão,
Sou cachorrona mesmo
E late que eu vou passar
Agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar"
(Sem calcinha)

Não consigo ver, apesar de estar me esforçando, nada além do sexo, da sexualidade, do status sexual, do "poder" do sexo, sendo exposto, o que não nego possa dar a noção a alguém de independência sexual, mas psicologicamente essa independência se assemelha a carência afetiva e recalque, não sei delimitar bem essas questões, mas não caio na esparrela de creditar verdadeiro poder, além do entretenimento e da catarse de séculos de repressão sexual, ao discurso dessa letra.

"Coringa, sem neurosi,
olha essa mulher toda gostosa que tah vindo ali tu conhece
É a Valesca cara aquela feinha da favela
olha como ela ta, como ela ta mó peitão, mó cabelão, mó bundão olha mano
e neguinho essa dai eu vo ataca
Não calma ai que eu vo te mostra como é que faz ai se liga

ÔÔÔ Coringa seu otário para de vacilação. Tu é pouca

areia pro meu caminhão! Agora é diferente, somos nós
mulheres que estamos mandando. Fica de quatro, balança
o rabo, me dá a patinha, bota a linguinha pra fora e
LATE, late seu cachorro.. late que eu to passando!"

O poder da Valesca, nessa música, é atingido depois que ela entra para o padrão de beleza, depois que ela passa ser desejada, dai então ela pode atingir aqueles que atingiam ela. Nada desse poder do corpo, apesar de o corpo também ter sido um ganho da luta feminina, significa a luta, pois a verdadeira luta, o verdadeiro poder seria acabar com os padrões masculinos do corpo e do desejo, seria o lutar por essa autonomia dos desejos e dos interesses e dos sujeitos.



Para terminar coloco aqui a música cujo título foi também utilizado no projeto da "polêmica" pesquisadora:
Na cama faço de tudo 
Sou eu que te dou prazer 
Sou profissional do sexo 
E vou te mostrar por que 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Mulher burra fica pobre 

Mass eu vou te dizer 
Se for inteligente pode até enriquecer 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Por ela o homem chora 

Por ela o homem gasta 
Por ela o homem mata 
Por ela o homem enlouquece 

Dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão 

Coloca silicone 
E faz lipoaspiração 
Implante no cabelo com rostinho de atriz 
Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz 

Você que não conhece eu apresento pra você 

Sabe de quem tô falando? 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Mulher burra fica pobre 

Mas eu vou te dizer 
Se for inteligente pode até enriquecer 

Minha buceta é o poder 


Rasta no chão, rasta no chão, rasta que rasta que rasta... 


Por ela o homem chora 

Por ela o homem gasta 
Por ela o homem mata 
Por ela o homem enlouquece 

Dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão 

Coloca silicone 
E faz lipoaspiração 
Implante no cabelo com rostinho de atriz 
Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz 

Você que não conhece eu apresento pra você 

Sabe de quem tô falando? 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Mulher burra fica pobre 

Mas eu vou te dizer 
Se for inteligente pode até enriquecer 

Minha buceta é o poder 

Minha buceta é o poder 

Rasta no chão, rasta no chão, rasta que rasta que rasta que rasta no chão...
(Minha buceta é o poder)

Por três frases cai-se na pachorra de se transferir caráter feminista a Valesca: "Mulher burra fica pobre /Mas eu vou te dizer /Se for inteligente pode até enriquecer", não se enganem, essa inteligência indicada é relacionada a como a mulher trata o seu sexo e nada mais!

Dessas questões é que tiro a dúvida se há mesmo critério sobre o objeto que se escolhe, não o Funk, mas a especificidade de relacionar Valesca ao feminismo, a não ser que se faça essa relação para dizer que ali, na verdade, não o há. De toda a forma a academia está criando teóricos cada vez mais relativistas para combater a sua própria estrutura elitista, mas cada vez mais inseguros e acríticos quanto ao seu próprio objeto e que, assim ladram, mas não mordem no ímpeto de trazer a tona os limites acadêmicos e a cultura popular e, dessa forma, não se rompe com nenhuma estrutura.



André Vargas

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O delírio fotográfico




Não há como não perceber, em qualquer espaço espetacular[1] da sociedade - claro que restrito ao espaço-tempo de lazer das pessoas -, a câmera fotográfica (acoplada aos celulares, ou não) está cada vez mais popular. Um caminho natural em um mundo onde as tecnologias galopam, barateiam-se, entram na moda, perecem e ressurgem; um caminho natural em um mundo onde o sentido do próprio ser está contido no modo compulsivo do consumo de produtos e na ideia de posse destes como status social e falsa ideia de construção de identidade.

A sociedade cria espaços vazios no homem, ou seja, retira dos homens a sua propriedade particular, para depois vender para os mesmos, maquiagens de identidade que nunca vão se estabelecer por completo e satisfatoriamente no ser deste homem perdido. E a máquina fotográfica exemplifica perfeitamente esta questão, pois ela ainda é, apesar de popularizada e difundida, conhecida por uma minoria que detém, de certa maneira, o valor criativo desse aparelho.

Não é difícil entender o que eu digo, ainda mais quando percebemos que, cada vez mais, novos mecanismos de propagação das fotografias são criados e utilizados como o explicitar das vaidades instantâneas. E ainda mais esses mecanismos corroboram e fazem com que as pessoas, iludidas ou não, perceptivelmente ou não, conscientes ou não, acabem por ceder ao tempo-resposta[2] que lhes é imposto pela sociedade.

Claro que tratamos de um povo explorado e praticamente vencido pelo esforço e pela estafa mental do trabalho, que não tem tempo para divagações, nem tampouco desejo por ampliar questões estéticas, intelectuais e capacidade abstrativa e que, com isso, objeta em tudo o uso, a imagem, o valor e a distração.

Não falo contra a distração, muito pelo contrário, assim como Theodor Adorno, em seu livro de ensaios Indústria cultural e sociedade, entendo o tempo que chamamos por lazer como benéfico e, mais do que isso, saudável, para uma sociedade, como já dito, explorada e cansada, porém desconfio que o lazer vá além, melhor, nada tem a ver com as formas, especificadas pela indústria cultural, de distração. O prazer do se apropriar-se de si mesmo no tempo é o encontrar-se consigo mesmo e não alienar-se de si, não o relaxamento. Este relaxamento é exatamente o entregar do seu tempo de lazer ao continuar do processo de exploração: a exploração mental.

Pois bem, as pessoas possuem suas máquinas fotográficas e, da forma com que estas máquinas são produzidas e, pautando-me pelo interesse inerente à tecnologia digital, as fotografias são tiradas, geralmente, para serem expostas pelos computadores e, mais especificamente pela internet.

A internet é um ponto de estranhamento para mim, pois a utilizo cotidianamente e vejo muitas formas interessantes de propagação de conteúdo e pesquisa nesse meio, porém, para se analisar a “idiotização” do ser humano ela é como se fosse a consequência. Fica sempre a suspeita de que a internet amplifica o modo de ser (ignorante de como se é) apropriado para este mudo. Melhor dizendo, fico sempre a pensar que a internet, principalmente no quesito redes sociais, direciona a humanidade para a vaidade, inveja, prepotência e para o palpite ignorante como posicionamento.

De toda a forma mecanismos como o Instagram criam uma banalização fotográfica ímpar – banalização que é, por sua vez, gerida pela popularização da máquina fotográfica; nasceu da digitalização da imagem e vem se encontrar com a propagação virtual instantânea – e bota a foto numa posição de interferência com a experiência acrescentadora.

As pessoas não querem ver, comer, beber, sentir... As pessoas querem mostrar, por vezes se mostrar. As pessoas estão querendo dizer que são. Em busca da identidade perdida, querem a todo o tempo dar demonstrações de que podem ver, comer, beber, sentir..., coisas que supõem que outras pessoas não podem fazer. Essa maneira práxis de existir contemporânea, é claro que não fica somente na questão das fotos, se estende para quase todas as esferas de interação pessoal-virtual. E a câmera fotográfica é usada como testemunha do que se pode ser e ter, com resquícios claros de vaidade, mas sobretudo, de falta de identidade.

As pessoas entram nos museus com suas máquinas fotográficas em punhos, prontas para fotografar tudo o que puderem, e até o que não puderem, se notarem (sentirem, experienciarem, conhecerem...) nada daquilo. As obras do museu são apenas alvos, algo para depois dizerem “Eu vi isso!”, criando a imagem de cultos, dentro dos padrões que a própria cultura impõe. Vão à praia e tiram fotos instantâneas para dizerem que foram, que são descoladas, que se divertem... Tantos exemplos poderíamos analisar com essa incerta (e ao mesmo tempo certa) investigação psicossocial.

De fato, as fotos se multiplicam no jogo do curtir-compartilhar-comentar, enquanto o vazio da identidade está cada vez mais exposto pela maneira como nos pronunciamos nessas redes, mas o mais impressionante é ver que tudo isso é, geralmente, encarado com naturalidade e até com certo relativismo permissivo, que indica duas respostas a essa maneira de se colocar: ou não há nada demais e “o que você tem a ver com isso?”; ou “o ser humano precisa disso”. Duas reposta que botariam um falso ponto final na discussão, posto que não deixariam conformados os que se incomodam com o que há e o que ainda há por vir, ou seja, com todo o processo no qual estamos definitivamente incluídos.

É preciso que fique claro que não sou contra a popularização e o maior acesso ao mecanismo máquina fotográfica para todos, não tenho nenhuma pretensão em dizer quem é de fato fotógrafo e quem representa a banalização da fotografia, só estou explicitando a minha inquietação com o que reflete no modo como se vive, essa troca do olhar vivo pela fotografia, da memória afetiva pelo chip de memória e, em geral, da experiência estética única e construtiva pela retração e pela propagação de imagens-identidades. 




André Vargas



[1] Tomando-se por base as noções de espetáculo do livro Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord: onde a verdade das coisas se perde nas representações espetaculares das mesmas, para a breve contemplação do homem, na formação de um pseudo-mundo inebriante e falso, com suas relações próprias, mediadas pelas imagens falsificadas da vida;
[2] Faço um breve apêndice aqui para explicar o termo “Tempo-resposta” e que acabo de cunhar. Tempo-resposta, nesse caso, significa exatamente o paralelo entre o tempo contemporâneo e suas estruturas (fixas, móveis, em construção ou em progressão) de relações humanas e a resposta que esse mesmo tempo espera e prevê do homem submerso nessas estruturas. A resposta que o tempo exige é o reproduzir do esperado, do previsto pelo contexto. Cada tempo tem sua resposta prevista e o tempo muda com o nascimento de respostas diferentes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

“O som ao redor” e as expectativas


Nada pode exprimir melhor a sensação que se tem ao se assistir este filme do que a quebra de expectativas. O espectador, ou seja, aquele que assiste ao correr das cenas ao mesmo tempo em que espera pelos desfechos, é jogado em armadilhas estrategicamente dispostas no decorrer do enredo pelo diretor.   Claro que poderíamos falar da imagem poética, da imagem cinematográfica, que obviamente marcam como fotografias exemplares em nossa memória nesse filme, mas não adentrarei a estética das imagens nesse texto. Partido-se desta perspectiva mais esteta, colocaríamos a sequencia da cachoeira de sangue em destaque, como se fosse um ponto vermelho, um ponto sanguinário, na história relatada no filme. Mas nem essa cena, por si só, faria sentido, para mim, apesar de profunda e autonomamente bela e poética, se ela mesma não assegurasse o mistério de esperar por um mistério, o mistério do por vir, ou seja, se ela mesma não fizesse parte de um jogo de montagem.

Todo esse filme é construído para que o espectador espere ansiosamente por um drama, uma tragédia, um desvelamento, algo que nos aguarde atrás da porta e nos dê um susto eterno, verdadeiro e infalível, porém, à medida que o tempo passa e nossas expectativas são, uma por uma, frustradas, com  genialidade, pela montagem, a expectativa fica de certa maneira “avessada”, como se pensássemos assim “É tudo normal e corriqueiro, não vai acontecer nada de diferente aí”. E é nesse exato momento de “desespectativa” que um ingrediente novo de mistério se configura aos nossos olhos e nos projeta novamente para a espera de uma novidade.
Botando em cenas, podemos sequenciar as tais expectativas sobre as quais falo e deixar mais claro o que quero dizer. Por exemplo, na cena em que o personagem "João", interpretado pelo ator Gustavo Jahn, descobre que o carro de uma amiga tem o aparelho de som roubado em sua rua. E, perguntando aos trabalhadores dos prédios, desconfia de um sujeito chamado "Dinho", que até então não fora apresentado.  Algo no diálogo e na mistura dos sons que se seguem delicadamente semeados, a suspeita de João sobre Dinho, o caráter suspeito e, ao mesmo tempo, inconspícuo que os trabalhadores respondem e o ato do próprio roubo, torna aquela uma situação onde a expectativa mais comum (e essa foi a minha) seria de um encontro categórico e definitivo entre João (polo positivo da trama) e Dinho (o primeiro vilão). Mas a quebra é fatal e mostra que Dinho é um primo adolescente de João que furta por joguete, por algum tipo de status de banditismo, herdado por seu avô (ao que se vê no final do filme). Ou seja, onde esperávamos um encontro-combate entre o bom o mau, só há o normal; onde o mau mais nos parece um inocente pela sua inconsequência pueril.
Outra cena que nos cria expectativa, para depois rompê-la é a cena onde a personagem "Bia", de Maeve Jinkings, recebe o entregador de água e inesperadamente tranca-se com ele sozinha em seu apartamento. Não sei se algo nos olhares dos personagens, que sabem mais sobre a história do que nós mesmo, ou no ambiente que se desenvolve a partir de uma aproximação súbita e inesperada dos dois, faz com que cogitemos que algo de sexual vá acontecer, mas logo entendemos que a aproximação, a descrição e o segredo deles é por causa da droga que o entregador de águas vende. Essa mesma personagem protagoniza com o cão de um vizinho um duelo que só termina com o final do filme, mas que, no decorrer, nos cria uma série de esperas, como quando cogitamos junto com a personagem a morte do cão.
Os personagens dos seguranças particulares da rua são um exemplo quase cômico da frustração boa do cotidiano e, nesse sentido, a gente chega a questionar o modo como criamos certos medos que não se sustentam, a não ser na lógica que se têm dentro desse sistema de segregações que é a sociedade atual. Não vou chegar a uma crítica social mais aprofundada, pois essa está na superfície do filme, e acho que o mais interessante do filme é no que ele se confronta conosco, indivíduos espectadores, cada um na sua angústia. Voltando aos personagens seguranças, eles demonstram à todo momento que nós esperamos por um crime na rua tanto quanto eles, como na cena em que guiam um estrangeiro, ou na cena em que assistem a uma mulher vomitar, mas a cena mais exemplar é quando eles começam a contar a história de como se conheceram. Somos levados pela postura dos personagens, e até, talvez, por certo estereótipo preconceituoso do nosso sistema de segurança, a supor uma vida de entraves e solavancos ilegais e criminosos, mas o que temos são pessoas que se ajudaram em alguns momentos de dor e perda catastrófica. É praticamente uma sequencia de suposições furadas que fazemos ao longo do diálogo entre os três seguranças, pois eles vão criando esquemas suspensos de retórica que nos induzem ao erro de cogitar mistério onde não há.
Uma última cena, e essa um exemplo perfeito do som como personagem do filme, é quando o velho "Francisco", interpretado pelo ator Waldemar José Solha, sai pela madrugada solitário rumo ao mar e nele se banha. Um som de profunda gravidade o acompanha ao acender das luzes de segurança da calçada, de modo que, de alguma forma, esperamos ali mais do que um banho de mar noturno, mas esse "mais do que" não se faz existir e o rotineiro e banal permanece verdadeiro.

Quando, então, fazemos o que o filme quase nos obriga a fazer: sossegamos com as expectativas de mistério desvendado e apenas esperamos que o “nada” novamente aconteça, o susto nos toma pela mão e nos recoloca no medo de que alguma coisa possa modificar a lógica realista-banal, como quando aparece o personagem de um menino de rua, furtivamente, pelo telhado, dentro da casa supostamente vazia e em cima da árvore. Isso mostra que, apesar de termos responsabilidade sobre o tamanho de nosso medo, a insegurança existe - não como uma horda de assaltantes que invade a casa pela madrugada, mas como uma criança que nós mesmo criamos e que nos furta o pão e foge chorosa e amedrontada ao desferirmos um murro em sua boca.
A cena, que já citei, da cachoeira de sangue é a mais emblemática para o retorno às expectativas, pois algo é garantido com aquele banho de sangue, algo há por vir, mesmo que não venha visivelmente e definitivamente. Há uma história oculta no filme que se desvela no final, sem pompa e com a humanidade dos tremores das mãos e do receio de cada personagem, mas no momento em que se tem um combate final de forças (nem boas nem ruins, mas certamente forças) nessa história oculta há um corte perfeito que muda o foco para o duelo cotidiano entre a personagem Bia e o cão do vizinho, que estão no seu embate final ao mesmo tempo em que o duelo de forças se instaura. Portanto essa história oculta não é, e em momento algum se torna mais importante do que a história “aberta” do dia a dia.
Claro que se pode falar do contexto social do nordeste; das questões de poder que envolvem os coronéis e sua decadência; da urbanização grosseira das cidades; da  classe média e das falhas sua segurança das quais a própria classe média tem uma parcela de culpa, entre outros fatores, se quisermos analisar a história hermenêutica e subjetivamente, mas essas são questões mais dadas e que não valem nada sem o questionar-se a si mesmo que o filme induz. Poderíamos ainda falar sobre o nível das atuações, mas entendo que isso é supérfluo, nesse caso, apesar de termos boas atuações, a montagem é o principal personagem e tem uma atuação esplêndida. Fato é que esse filme quebra tanto as expectativas que muita gente que foi assisti-lo, esperando a maravilha mirabolante que os “críticos” estavam propagando, se frustrou. Mas acredito que o problema esteja justamente nos críticos, pois estes deram ao roteiro os louros e os créditos conseguidos unica e exclusivamente pela montagem. Logo, muitos foram assistir a um filme com um roteiro fantástico e viram, até sem perceber, e querer, um roteiro singelo com uma montagem profundamente genial, o que não vai sempre ao gosto de quem espera mais de um roteiro. Mas o que me encheu os olhos de novidade.


André Vargas